sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Roger Scruton e a Nova Esquerda

Roger Scruton e a Nova Esquerda

Scruton
Em seu novo livro, Roger Scruton oferece um diagnóstico e um antídoto para a Nova Esquerda.
Por Ron Capshaw: [*]
O importante é que não se discuta [com os Comunistas]… não importa o que você diz, eles possuem mil maneiras de distorcer suas palavras e rebaixá-lo a alguma categoria inferior de ser humano: ‘Fascista’, ‘Liberal’, ‘Trotskista’, desqualificando-o tanto intelectualmente quanto pessoalmente no processo.
A citação acima é de F. Scott Fitzgerald que — apesar de ter sido ridicularizado por Edmund Wilson como alguém que tinha talento mas não tinha cérebro — era, talvez, o único membro da Geração Perdida astuto o bastante para não se iludir com o Comunismo. O modo de atuação que ele atribui aos Comunistas de Hollywood na década de 30 passou despercebido durante décadas até reaparecer no meio acadêmico. Nós, estudantes já formados, vimos isso em ação. Certa vez, fui testemunha de um estudante questionando um professor por que não havia livros conservadores na grade curricular para fazer contrabalancear os livros esquerdistas, ao que o professor respondeu: “porque são todos fascistas”. E assim foi.
Essa tendência é comprovada no estudo de Roger Scruton sobre os “pensadores” da Nova Esquerda — Fools, Frauds, and Firebrands (“Tolos, Fraudes e Agitadores” em tradução livre).  Ao levar o leitor a cada um destes pensadores e seus “ismos” em particular — o pós-modernismo de Michel Foucault, o Marxismo baseado no Protestantismo de Eric Hobsbawm e E. P. Thompson — o resultado final é sempre o mesmo. Todos são impacientes com as imperfeições da Civilização Ocidental. Todos procuram uma ideologia mais eficiente. Todos se preparam para uma guerra civil, adotando a categorização de classes por seus efeitos explosivos em uma sociedade coesa. Todos eles defendem a justiça de sua causa, apropriando-se de uma linguagem e selecionando palavras de exaltação que expressam sua vaidade moral.
Deste modo, eles praticam o Maniqueísmo, rotulando de “maus” todos os que se opõem à sua agenda de “justiça social” com palavras aterrorizantes tais como “capitalistas” e “fascistas”. Até mesmo aqueles que possuem uma relação muito vaga com o Marxismo, como Foucault, encontram opressão e discórdia na Civilização Ocidental. Para Foucault, o próprio conceito de objetividade já é fascista (verbos por sua vez são construções opressivas).
É nessa área da linguagem que Scruton identifica o sucesso desses intelectuais no domínio do meio acadêmico. A exemplo de George Orwell, Scruton descreve como eles pautam a linguagem do debate e, uma vez que se auto-proclamam os defensores da humanidade, todos os que se opõem a eles são contra a humanidade – ou ervas daninhas que sufocam o jardim.
Apesar da retórica de estarem dispostos a confrontar a realidade, Scruton enfatiza que suas ideologias são criadas para evitar a realidade. Em nenhum lugar isso é tão nítido quanto na realidade vivida pela União Soviética. Eric Hobsbawm louvava Lênin por ter libertado os russos do Czar e compreendia seus métodos cruéis pós-Revolução como necessários ao progresso da humanidade. Tal manipulação de linguagem exige uma omissão de fatos, como a perseguição e o assassinato de intelectuais ordenados por Lênin. Vasculhe a obra de Hobsbawm e verá que não há uma menção sequer sobre o fato de Stalin ter diminuído para 12 anos a idade mínima para a aplicação da pena de morte.
Estes intelectuais são tão confiantes de seu poder que entram em estado de choque quando um dos seus abandona o grupo. E. P. Thompson se sentiu “ferido e traído” quando um de seus colegas condenou a brutalidade do Comunismo no Leste Europeu.
Apesar de todas suas críticas, o britânico Scruton é tolerante em relação aos pensadores da Nova Esquerda britânica. Thompson tinha “uma mente investigativa brilhante”. Por não aderirem à agenda internacionalista, os socialistas britânicos possuem a “atrativa” qualidade de buscar os interesses de sua terra natal somente. Este “amor pela terra natal e seu território” torna possível o diálogo sobre pontos em comum com os conservadores britânicos.
Ao contrário de muitos conservadores, Scruton não é somente um refutador, mas delineia uma rota de saída do Marxismo. Dá-se pelo Estado de Direito — não por um movimento revolucionário — em que os cidadãos têm a proteção das instituições enquanto que tais instituições estão sujeitas à lei e aos seus cidadãos.
O livro de Scruton, com sua análise sobre os excedentes de commodities e métodos de consciência, pode ser de difícil leitura. Os desinteressados em discussões filosóficas sobre o que constitui as realidades de classe  podem se perder no caminho. Porém, aos que queiram ver como – depois da implosão do Comunismo – a esquerda inflexível dominou o mundo acadêmico e ainda se mantém nela até os dias de hoje, o livro pode ser recompensador.
[*] Ron Capshaw. “Roger Scruton and the New Left“. National Review, 12 de dezembro de 2015.
Tradução: Hélio Duarte
Revisão: Hugo Silver

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Ruy Castro: "Quem sabe, sabe"

Ruy Castro: "Quem sabe, sabe"

Rahel Patrasso - 23.dez.2017/Xinhua
171223) -- SAO PAULO, diciembre 23, 2017 (Xinhua) -- El expresidente de Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, participa durante el evento de inauguración de un campo de fútbol en la Escuela Nacional Florestan Fernandes, creada por el Movimiento de los Sin Tierra (MST) de Brasil en 2005, en Guararema, estado de Sao Paulo, Brasil, el 23 de diciembre de 2017. El MST es uno de los mayores movimientos sociales de Brasil. (Xinhua/Rahel Patrasso) (rp) (jg) (rtg)
O ex-presidente Lula em evento realizado em dezembro de 2017


Folha de São Paulo
A dias de ter seu destino selado pela Justiça, o ex-presidente Lula vai jogar sua última cartada para a galera, recrudescendo o grau de ira de seu discurso. É verdade que não falta mais ninguém para ofender —o próprio juiz Sergio Moro já foi chamado por ele de parcial, ilegítimo, mentiroso, czar e até de surdo. E sua ladainha contra a "burguesia loura e de olhos azuis" teve de ser posta de lado quando se percebeu que seu advogado é louro e de olhos azuis —tal como, aliás, a falecida dona Marisa.

Será o confronto final entre seu discurso triunfalista de que, por falta de documentos, nunca poderão provar que ele era dono de sítios e triplexes, e a constatação óbvia de que ninguém passa recibo por malfeitos. O outro argumento, dirigido aos desinformados do exterior, de que não lhe dão direito de defesa, não pode ser usado aqui diante das dezenas de recursos dirigidos por sua defesa à Justiça e da repetida convocação de testemunhas para ilibá-lo —segundo José Simão, nem Jeová teve tantas testemunhas quanto Lula.

Será interessante também assistir, nos próximos dias, à campanha da ex-presidente Dilma Rousseff pregando que os inquéritos visam apenas impedir que Lula volte à Presidência. Supondo que seja verdade, nada disso estaria acontecendo se, ao fim de seu mandato em 2014, ela tivesse aberto mão de sua candidatura à reeleição e devolvido a vaga a Lula —como ficara combinado que aconteceria quando ele a inventou como candidata em 2010.

Donald Trump, presidente dos EUA, chamou há pouco o Haiti e os países africanos de "países de merda". Lula não precisou ir tão longe —chamou o próprio Brasil de país de merda. "Este país não nasceu para ser a merda que é", ele disse em Feira de Santana, na Bahia, no dia 20 de agosto do ano passado.

Quem sabe, sabe. 

Carlos Alberto Sardenberg e o desespero do PT


O Globo

Milhares de cargos foram perdidos pelo PT e associados. Um segundo cataclismo, nas eleições deste ano, seria devastador


É um claro sinal de desespero essa radicalização do PT à medida que se aproxima o julgamento de Lula no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. Há um componente de agitação e propaganda nesse movimento — uma última tentativa de intimidar o Judiciário — mas tem aí uma questão pessoal.

Trata-se do futuro profissional, do meio de vida mesmo, de grande parte dos quadros do PT. Estamos falando daqueles que só trabalham em três ambientes: no próprio partido, nos sindicatos e nos governos. São pessoas que praticamente largaram suas profissões para se dedicar inteiramente à atividade política.

Lula, claro, é o exemplo maior. Mas há outros milhares que descreveram a mesma trajetória de vida. São operários, advogados, médicos, engenheiros, técnicos de diversas áreas, jornalistas, que há muitos anos não têm qualquer atividade no setor privado da economia.

Podem reparar nos currículos. O sujeito é membro do partido, diretor do sindicato, depois aparece como secretário de alguma prefeitura, vai para um DAS no governo federal, assume um posto em governo estadual, uma bela assessoria em estatal — e assim vai, de administração em administração, de cidade em cidade, sempre acompanhando as vitórias do PT.

Os funcionários públicos concursados, como os professores, estão em parte protegidos pelas generosas regras do setor, entre as quais a estabilidade. O PT perde a eleição, o sujeito perde o cargo no governo e volta para a repartição. Mas como um simples peão. 

Tem um garantido mensal, mas perde gratificações, DAS, jetons por participação em conselhos de estatais, perde poder.

Eis um ponto pouco comentado, mas que está nas preocupações internas dos militantes.

Isso, aliás, explica grande parte dessa adesão cega a Lula. Tem o fervor político, claro, mas, convenhamos, é coisa de poucos. Os outros, inclusive por terem participado de campanhas e governos, sabem que é tudo verdade: caixa dois, desvio de dinheiro para o partido e para bolsos pessoais. Sabem que Lula se beneficiou pessoalmente desses esquemas — e sabem que a Lava-Jato descobriu tudo isso, com provas, sim senhor. Os que não sabiam e ficaram chocados já deixaram o partido.

Os demais lutam pela sobrevivência. Já houve um primeiro desmoronamento nas eleições municipais de 2016. Milhares de cargos foram perdidos pelo PT e associados. Um segundo cataclismo, nas eleições deste ano, seria devastador.

Daí o desespero — condição que frequentemente leva a decisões equivocadas.

Ameaçar o Judiciário, por exemplo, é um baita erro. Mas o que fazer quando se sabe que não há saída jurídica? Na verdade, há uma alternativa — a delação premiada. Lógico: o sujeito é apanhado, sabe que a Lava-Jato tem provas, faz o quê? Colaboração.

Como Lula não pode fazer isso, sobra o quê? Ir para o confronto, o desafio ao Judiciário, a ameaça de incendiar as ruas.

Esse confronto é politicamente ruim. Só agrada mesmo à militância cega. Assusta a maior parte da sociedade com a volta do PT radical, daquele Lula antes de fazer a barba, aparar o cabelo, vestir um terno Ricardo de Almeida com gravata Hermès e falar manso.

Quase um suicídio?

Aqui entra outra, digamos, convicção de Lula e seus mais próximos colaboradores. A de que ele consegue mudar o discurso a qualquer momento, de modo convincente. O radicalismo pré-julgamento seria só uma fase. Depois, na hipótese improvável da absolvição, volta-se para o paz e amor.

Na hipótese provável da condenação, vem agitação, mas a aposta maior será ganhar tempo com os recursos. Não será surpresa se aparecerem nessa fase declarações elogiosas aos tribunais superiores.

Veremos.

De todo modo, o que importa para Lula e seus militantes é salvar algum naco de poder. O que explica, por exemplo, as negociações partidárias nos estados com os golpistas do PMDB. Vale tudo pelos cargos e para estar no governo, qualquer governo.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Congresso brasileiro é um dos mais caros do mundo. Veja os benefícios pagos a um parlamentar Edson Sardinha -


Congresso brasileiro é um dos mais caros do mundo. Veja os benefícios pagos a um parlamentar

Edson Sardinha - Congresso em Foco


Salários, verbas extras para moradia, funcionários, aluguel de escritório, telefone, veículos, combustível, divulgação do mandato, passagens aéreas, entre outras coisas. Plano de saúde em condições vantajosas e até vitalício. Ajuda de custo equivalente a dois salários adicionais no início e no fim do mandato. Esses são alguns dos benefícios (veja a lista abaixo) que fazem do Congresso Nacional um dos parlamentos mais caros do planeta.
O Brasil ocupa a sexta colocação em salário de deputados em razão do Produto Interno Bruto (PIB) per capita. À frente, gastam mais com seus representantes algumas das nações mais pobres do planeta, como Nigéria, Gana e Quênia, que lideram o ranking da disparidade entre as despesas com parlamentares e a média da riqueza de sua população.
O país também se destaca internacionalmente o número de assessores pessoais por congressista. Nos Estados Unidos, cada deputado pode contar com até 18 auxiliares. No Chile, com 12, e na França, com 8. Já no Brasil esse número chega a 25 assessores. O Senado brasileiro permite a contratação de 55 funcionários, mas há senadores que chegam a muito mais. É o caso de Fernando Collor de Mello (PTC-AL), com 80, e de João Alberto Souza (MDB-MA), com 84 servidores às suas ordens.

Levantamento do jornal El País, focado na América Latina, também aponta a disparidade entre os ganhos dos parlamentares e o salário médio dos cidadãos que eles representam. O Brasil tem a maior remuneração para deputados e senadores da região, seguido de Chile, Colômbia e México. Um congressista brasileiro recebe somente de salário o equivalente a 35 salários mínimos de R$ 954,00.
Mas por que o Brasil chegou a esse ponto? “O principal fator é a falta de vigilância da sociedade. Gastos são alterados por decretos ou atos na surdina sem que a sociedade tenha ciência disso. O Brasil ainda é incipiente em controle social. Esse fator é relevante para entender porque os gastos com o Parlamento são tão expressivos no país”, responde Guilherme Brandão, diretor do Observatório Social de Brasília e coordenador-geral da iniciativa “Câmara mais barata”, voltada para o Legislativo do Distrito Federal.
Para Guilherme, a realidade só será mudada quando o brasileiro perceber que sua participação no processo democrático não se limita ao voto. “Falta maturidade da cidadania para fiscalizar. Não basta criticar, é preciso também avaliar e fiscalizar as políticas públicas. Avançar além da indignação e apontar caminhos para a sociedade civil. Precisamos ser vigilantes”, defende o ativista.
A relação dos principais benefícios de um congressista brasileiro:
BenefíciosDeputadoBenefíciosSenador
SalárioR$ 33.763,00SalárioR$ 33.763,00
Cotão *De R$ 30.788,66 a R$ 45.612,53Cotão *****De R$ 21.045,20 a R$ 44.276,60
Auxílio-moradia **R$ 4.200,00Auxílio-moradia **R$ 5.500,00
Verba para contratar até 25 funcionáriosR$ 92.000,00Contratação de até 55 funcionários (valor não especificado)
Ajuda de custo ***R$ 33.763,00Ajuda de custo ***R$ 33.763,00
Plano de saúde ****LimitadoPlano de saúdeVitalício
Carro oficialIntegrantes da Mesa DiretoraCarro oficialCarro oficial com motorista
* Valor varia conforme o estado. O menor é pago aos representantes do DF, e o maior, aos de Roraima.
** Benefício pago ao parlamentar que não ocupa imóvel funcional ou próprio.
*** Valor pago no início e no fim do mandato de cada parlamentar, inclusive suplentes
**** Os deputados só são ressarcidos em serviços médicos que não puderem ser prestados no Departamento Médico (Demed) da Câmara, em Brasília.
***** Varia conforme o estado de origem do parlamentar. Os menores montantes são pagos aos senadores de Goiás e do DF. Os maiores, aos senadores do Amazonas.
Fonte: Congresso em Foco, com base em dados da Câmara e do Senado

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Desperte para o real significado da liberdade - Roger Scruton

Desperte para o real significado da liberdade

conservativeQuando pressionados por uma declaração de suas crenças, conservadores dão respostas evasivas ou irônicas: crenças são as que os outros têm, aqueles que, como socialistas e anarquistas, confundiram política com religião. Isto é lamentável, porque o conservadorismo é uma filosofia genuína, ainda que não sistemática, e ela merece ser afirmada especialmente em tempos como o atual, quando o futuro de nossa nação está ameaçado.
Conservadores acreditam que nossas identidades e valores são formados através de nossas relações com outras pessoas, e não através de nossas relações com o estado. O estado não é um fim, mas um meio. A sociedade civil é a finalidade última, e o estado é o meio de protegê-la. O mundo social emerge através da livre associação, enraizada nas relações de amizade e na vida em comunidade. E os costumes e instituições que estimamos têm crescido de baixo, pela mão invisível da cooperação. Elas raramente têm sido impostas de cima pelo trabalho de políticos, cujo papel, para um conservador, é reconciliar nossos propósitos, não ditá-los ou controlá-los.
Apenas nos países de língua inglesa os partidos políticos se descrevem como “conservadores”. Por que isto? Isto se dá claramente porque os falantes da língua inglesa são herdeiros de um sistema político que tem sido construído de baixo, pela livre associação de indivíduos e pelas operações da common law. Consequentemente, concebemos a política como um meio para conservar a sociedade e não um meio para impô-la ou criá-la. Da Revolução Francesa à União Europeia o governo continental tem se concebido em termos de “cima para baixo”, como uma associação de sábios, figuras poderosas ou “experts”, que estão no negócio de criação de ordem social através de regulação e lei imposta. A lei comum não impõe ordem, ela emerge da ordem. Se o governo é necessário, do ponto de vista conservador, é a fim de resolver os conflitos que surgem quando as coisas estão, por qualquer razão, desestabilizadas.conservative warning
Se você vê as coisas deste modo, então você está propenso a conservar a sociedade civil pela acomodação da mudança necessária. O Partido Trabalhista visou enfraquecer nossa sociedade externamente e dividi-la internamente. Externamente por sua inquestionável aceitação da primazia da autoridade internacional da União Europeia, internamente pela imigração indiscriminada, conflito de classes e “reformas”, que usualmente significa a politização de nossas consagradas instituições. Os conservadores, por contraste, aspiram por uma sociedade governada de forma coerente com as instituições que surgiram através dos tempos em resposta às necessidades de mudança e circunstâncias.
Tal sociedade depende de uma lealdade comum e uma lei territorial, e estas não podem ser alcançadas sem fronteiras. Mas nos encontramos obrigados por um tratado concebido por internacionalistas utópicos em circunstâncias que desapareceram já há muito tempo. O tratado da União Europeia obriga os estados membros a permitir “livre movimentação de pessoas”, independentemente de seus desejos ou seu interesse nacional. Com seu sistema de assistência social aberto, sua língua universal, sua riqueza relativa, suas liberdades cuidadosamente defendidas, nosso país é o destino preferido da onda de imigrantes europeus. Portanto, no topo de qualquer agenda conservadora está a questão da imigração. Como limitá-la, e como assegurar que os recém-chegados se integrarão numa sociedade em que a livre associação, liberdade de opinião, e o respeito pela lei são axiomáticos.
Os conservadores reconhecem que o direito de eleger nossos legisladores e mudar a lei é uma premissa de políticas democráticas. Sempre que possível, eles acreditam, nossas leis devem ser elaboradas em Westminster, ou nas côrtes da commom law de nosso reino, não por burocratas não eleitos em Bruxelas ou por côrtes de juízes Europeus.
Até recentemente os conservadores enfatizavam a sociedade civil tendo igual ênfase na família em seu cerne. Esta ênfase tem sido distorcida em confusão pela revolução sexual, pela difusão do divórcio e nascimentos fora do casamento, e pelos movimentos recentes para acomodar o estilo de vida homossexual. E estas mudanças tiveram que ser absorvidas e normalizadas. Nossa sociedade é tolerante, na qual a liberdade é estendida a uma variedade de religiões, visões de mundo, e formas de vida doméstica. Mas a liberdade é ameaçada pela licenciosidade: a liberdade é fundada em responsabilidade e respeito pelos outros, enquanto que a licenciosidade é um modo de explorar os outros por puro ganho pessoal. A liberdade entretanto precisa de valores que protejam os indivíduos de uma vida pessoal caótica e que cuidem da integridade do lar em face de muitas ameaças.
O conservadorismo é uma filosofia de legado e administração, não dissipa recursos, empenha-se em aumentá-los e passá-los adiante. Para os conservadores, a política ambiental precisa ser resgatada da expertise embusteira dos alarmistas. Mas deve também ser resgatada da religião do Progresso, que nos instiga a perseguir crescimento a qualquer custo e a transformar nosso amado país em um conjunto de plataformas de concreto, por ferrovias de alta velocidade numa paisagem em que cada topo de montanha é coberto por sinistras fazendas de vento.
É difícil que estas convicções surtam efeito agora. Através de quangos (comitês) e corpos oficiais, o estado tem sido ampliado pelo Partido Trabalhista até o ponto de engolir a iniciativa privada e distorcer o longamente estabelecido instinto de caridade de nossos cidadãos. As regulações dificultam a associação de pessoas, e as decisões nonsense das côrtes Europeias constantemente nos dizem que, vivendo de acordo com nossas luzes, estamos atropelando os direitos humanos de alguém. Os conservadores acreditam em direitos, mas em direitos que são pagos por deveres, e que antes reconciliam pessoas ao invés de dividi-las.
Os pensadores de esquerda quase sempre ridicularizam a posição conservadora como defensora do livre mercado a qualquer custo, introduzindo a competição e a motivação do lucro mesmo nos arredores sagrados da vida comunal. Adam Smith e David Hume deixaram claro, entretanto, que o mercado, que é a única solução conhecida para o problema da coordenação econômica, depende ele próprio do tipo de ordem moral que emerge de baixo, quando as pessoas se responsabilizam por suas vidas, aprendem a honrar seus acordos e vivem em justiça e caridade com seus vizinhos. Nossos direitos são também liberdades, e liberdade faz sentido apenas entre pessoas que sejam responsabilizáveis por seus vizinhos em caso de mau uso.
Isto significa que, para os conservadores, o esforço de recuperar a sociedade civil do estado deve continuar incessantemente. Uma por uma nossas liberdades estão sendo erodidas: a liberdade de expressão pelos muçulmanos, a livre associação pela Côrte Europeia de Direitos Humanos, a liberdade de fazermos nossas próprias leis e controlar nossas fronteiras pela União Europeia. Nós conservadores valorizamos nossa liberdade não porque ela seja uma posse abstrata de uma pessoa abstrata, mas porque é uma conquista concreta e histórica, o resultado da disciplina civil exercida por séculos, e o símbolo de nosso reservado respeito pela lei do país.
Por Roger Scruton, originalmente publicado em The Spectator, original aqui.
Traduzido por Flávio Ghetti

domingo, 14 de janeiro de 2018

Na Venezuela vale tudo para fugir da ditadura socialista Por Emma Sarpentier

Na Venezuela vale tudo para fugir da ditadura socialista

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A tragédia dos venezuelanos que morreram tentando chegar à ilha de Curaçaoinfelizmente não é nova. Diversos outros naufrágios aconteceram na tentativa de escapar da ditadura socialista de Nicolás Maduro.
Milhares de venezuelanos desnutridos não mediram esforços para atravessar a Bacia Amazônica a pé para entrar no Brasil. Ou contornar os controles da guarda socialista em aeroportos e/ou estações de ônibus para entrar em países caribenhos como Aruba ou Curaçao, os quais antes aceitavam venezuelanos sem grandes exigências e agora exigem que tenham pelo menos 1000 dólares em dinheiro para autorizar a entrada, uma quantia equivalente a quase 10 anos de trabalho de um venezuelano.
Muitos dissidentes recorreram a disfarces, identidades falsas ou simulações em outras línguas para salvar suas vidas, escapando do próprio país.
A Venezuela já foi um dos países mais ricos da América do Sul, atraindo imigrantes e empresários de todo o mundo. Depois que Hugo Chávez chegou ao poder, o setor produtivo foi destruído e a elite econômica faliu em prol de “mais direitos” para os mais pobres, o desemprego disparou e tanto ricos quanto a classe média fugiram para países mais livres. Mais de 2 milhões de venezuelanos fugiram do país desde então.
No ano passado, quando o ditador Maduro abriu a fronteira com a Colômbia, milhares e milhares de pessoas correram para o país vizinho para comprar comida. Uma grande quantidade deles nunca retornou.

A fuga pelo mar é uma aventura perigosíssima e significa se envolver com traficantes que transportam o fugitivo nas mesmas jangadas ou barcos onde carregam drogas. Neste processo, o fugitivo já vendeu tudo o que tinha para pagar a travessia. Se ainda assim não tiver dinheiro suficiente, deve pagar a passagem com sexo.
Conseguindo efetuar o pagamento, o fugitivo embarca em uma viagem que atravessa centenas de quilômetros de um mar furioso com tubarões, piratas e guardas costeiros.
Conseguindo chegar ao destino, o agora refugiado deve subornar as pessoas necessárias para trabalhar na área turística como escravo, seja limpando pisos ou banheiros, vendendo produtos nas ruas ou se prostituindo aos turistas.
A fuga por terra é igualmente complicada e pode levar meses, encontrando toda sorte de obstáculos como as milícias e paramilitares da ditadura venezuelana, e os narcoterroristas das FARCs – ainda ativos – que cobram “pedágio” para permitir a passagem.
Os profissionais mais qualificados foram os primeiros a fugir para buscar sucesso em outros países. Agora, o socialismo avançou ao ponto de causar colapso econômico e fome similares aos cubanos, gerando novos imigrantes: os cidadãos mais pobres, aqueles que o socialismo prometeu beneficiar.
Na Venezuela descobrimos o que significa, na prática, a “justiça social” socialista defendida pela esquerda: miséria, fome, falta de energia e água potável, prisões e fuzilamentos extrajudiciais, péssimas condições de higiene e êxodo em massa.

sábado, 13 de janeiro de 2018

"Corporações encasteladas", editorial do Estadão


O Estado de S.Paulo 

De acordo com as folhas de pagamento enviadas pelos Tribunais de Justiça dos Estados ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 71,4% dos magistrados das 27 unidades da Federação recebem remunerações mensais que ultrapassam o teto de R$ 33,7 mil, salário que é pago aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

A situação se repete, em maior ou menor grau, nas demais estruturas do Poder Judiciário. As discrepâncias nos vencimentos pagos no âmbito da Justiça estadual, no entanto, ao invés de ensejarem uma reação de todos em prol do interesse dos contribuintes, geram efeito diametralmente oposto, ou seja, estimulam uma corrida pela equiparação das benesses para todos os servidores da Justiça.

Não se pode olvidar que são servidores que, em razão do alto grau de qualificação que possuem e à natureza do trabalho que exercem, não têm dificuldades para justificar a manutenção de privilégios absolutamente inaceitáveis do ponto de vista da moralidade pública, ainda que criativas interpretações da lei possam, eventualmente, dar-lhes um verniz de legalidade.

“Na Justiça Federal, ninguém ganha mais do que o permitido e está tudo definido: salário, gratificação, benefício. Não há qualquer dificuldade em encontrar esses dados”, afirmou Roberto Veloso, presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe).

No mesmo sentido, Julianne Marques, vice-presidente da Associação dos Magistrados do Brasil (AMB), explica que “existem verbas indenizatórias, diárias de viagem e auxílio-moradia” que não ferem o teto constitucional porque, segundo ela, não podem ser considerados como salário. “Do ano passado (2016) para cá”, prossegue a magistrada, “não tivemos aumentos. O que temos são subsídios previstos em lei. E o resto é indenização.” Ou seja, a suspensão dos aumentos do funcionalismo diante das dificuldades econômicas do País serve, aos olhos de alguns juízes, como subterfúgio para o pagamento de verbas adicionais como uma espécie de compensação.

Estimativas da área técnica do STF dão conta de que há, pelo menos, 40 tipos de verbas incidentes sobre os vencimentos dos magistrados.

Já seria escandaloso por si só o fato de haver uma grande parcela dos juízes do País recebendo acima do teto que lhes é fixado pela Constituição, um texto que os magistrados deveriam ler com a mesma reverência diligente de um religioso diante de seu livro sagrado. Mas estes servidores, reunidos em associações de classe fechadas em si mesmas e alheias à realidade do País a que devem serviço,
parecem zombar dos demais brasileiros que vivem em condições socioeconômicas muito diferentes.

Não pode ser interpretada de outra forma a recente mensagem de fim de ano do presidente da Ajufe dirigida a seus pares na Justiça Federal. Nela, Roberto Veloso comemorou o fato de o projeto de lei que acaba com os vencimentos extrateto do funcionalismo público ter passado incólume pela agenda legislativa em 2017, conforme informou a Coluna do Estadão.

Em sua cândida mensagem de Natal aos colegas, o presidente da Ajufe ainda celebrou a manutenção do pagamento do auxílio-moradia, mordomia que custa, aproximadamente, R$ 435 milhões por ano aos cofres públicos, e não conteve o entusiasmo ao comemorar o adiamento da discussão e votação da PEC 287/2016, que trata da reforma da Previdência, medida que, segundo ele, “traria grandes prejuízos aos juízes federais”, convidados por Veloso a se manifestar contra a proposta em 2018.

“Apesar de toda campanha para nos atingir financeiramente, não perdemos nada”, disse.
São manifestações como as da Ajufe que revelam ao País que tais corporações parecem encasteladas na defesa de seus próprios interesses, não tendo a menor relevância as condições econômicas do País ao qual, repita-se, devem prestar serviço em troca de uma boa remuneração, muito acima do que sonha um dia ganhar um cidadão brasileiro médio.