sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Depois do carnaval - Fernando Gabeira

Depois do carnaval - Fernando Gabeira

- O Estado de S. Paulo

Está mais do que na hora de tornar públicos os depoimentos dos 77 delatores da Odebrecht

O escritor Vargas Llosa disse que a Odebrecht merece um monumento por ter revelado o mecanismo de corrupção no continente. Naturalmente, referia-se ao modo de operar da empresa. A Odebrecht, na verdade, revelou o mecanismo da corrupção, apesar dela.

A primeira etapa foi de negação. Marcelo Odebrecht recusava-se a colaborar e orientava uma agressiva tática de defesa. Funcionários da Odebrecht foram enviados ao exterior para desfazer pistas, sobretudo na Suíça.

De fato, o mecanismo da Odebrecht é monumental, incluindo o uso de um banco, de cervejarias e inúmeras outras empresas que cobriam sua identidade. Mas a empreiteira só decidiu mesmo revelar toda a trama, até a internacional, quando foi descoberto o seu setor de operações estruturadas, que articulava esse imenso e sofisticado laranjal.

O mérito real da revelação do mecanismo que unificou quase todos os governos do continente na mesma teia de corrupção é da Operação Lava Jato. Graças ao trabalho e à competência da equipe de investigadores, todos os sistemas políticos ligados à Odebrecht foram sacudidos e, em algum nível, terão de se renovar.

A Lava Jato tornou-se uma grande ajuda à imagem do Brasil. Em muitos países onde se debate o tema, é citada como o exemplo de uma investigação bem-sucedida.

Há outros ângulos desse esquema de corrupção que atingem a imagem do País. No Peru, por exemplo, foram bloqueados R$ 191 milhões de oito empresas brasileiras ligadas à Lava Jato.

Empresas brasileiras, assim no plural, aparecem nos títulos das notícias. O problema é que o Brasil tem mais de 400 empresas operando no exterior. É importante que não sejam chamuscadas, assim como é importante uma reflexão sobre como evitar que o próprio brasileiro não seja visto com suspeição.

O melhor para isso, creio, é avançar com a Lava Jato. O passo mais importante é levantar o sigilo dos 77 depoimentos de dirigentes da Odebrecht. Afinal, o que eles realmente revelam sobre o gigantesco esquema de corrupção?

É sempre possível argumentar que o sigilo favorece as investigações. Mas minha tese é que, se há um tsunami pela frente, é melhor passar logo por ele.

Espero que o sigilo prolongado não seja apenas uma visão paternalista de evitar que a crise política se aprofunde, de supor que ainda o País não está preparado.

Acrescento outro argumento: um pequeno grupo que conheça esses dados tem sempre um grande poder nas mãos. É razoável que queira torná-los públicos para evitar interpretações maliciosas sobre o prolongado silêncio.

No jornalismo costumávamos dizer que notícia é como baioneta, sentou em cima, ela espeta. Sentar em cima das delações da Odebrecht, de um fato histórico dessa dimensão continental, também pode ser dolorido.

Todas as delações com importância secundária já vieram à tona. A sensação que tenho é de estar num restaurante lento onde o garçons, de vez em quando, trazem algo para nos distrair, mas o prato principal mesmo continua no forno.

Pode ser que exista de fato uma preocupação com o processo de retomada econômica e os duros passos da jornada para recolocar o País no eixo – na verdade, uma escolha que significa apertar agora para não submergir adiante. Embora muitos contestem, acredito que o avanço das investigações e a recuperação econômica se entrelacem.

O governo tem uma diretriz de reformas necessárias e está a caminho de realizá-las. Mas o próprio governo já balizou o cenário em caso de ser atingido pela Lava Jato: quem virar réu perde o cargo. É uma norma anunciada e se for levada a efeito, creio, será recebida com a naturalidade com que se anula um gol de mão.

Supor que seja possível retardar o processo político – o tsunami envolve todo o sistema partidário – para não deter o econômico é optar por uma tática ilusória. É mais do que hora de dar a palavra aos 77 delatores da Odebrecht. Tenho vontade de começar a bater o garfo no prato vazio.

A necessidade de saber não é para contabilizar quem recebeu quanto, divertir-me com apelidos folclóricos. É a necessidade de pensar um pouco adiante, ter uma ideia de como é possível reconstruir um tecido político dilacerado.
Admiro a energia de pessoas sentadas sobre o tsunami. Mas estão sentadas também sobre o futuro do sistema político brasileiro, que depende desses dados para esboçar um mapa do caminho.

Felizmente, uma revelação dessa amplitude provoca visões diferentes. Com os dados na mesa, à disposição de todos, podem dar bons frutos.

Há um certo encanto em navegar na neblina, em improvisar ao sabor dos eventos. Mas é preciso pensar um pouco adiante, antecipar alguns passos mentalmente.

Não se trata de moldar o futuro, nem de fantasiar amanhãs que cantam. Apenas deixar esta fase de insegurança: crise, desemprego, violência crescente, distância abissal entre sistema político e sociedade.

Isso não pode dar certo. Submete a democracia brasileira a uma tensão cada vez maior. E de uma qualidade diferente do movimento das diretas. Ali estava em marcha a conquista de um direito: escolher o presidente da República.

A realidade mostrou-nos que não basta escolher um presidente pelo voto direto. É preciso construir um espaço para que se mova com decência.

A atmosfera política decaiu de tal maneira que bloqueou as saídas. É necessária uma implosão para abrir horizontes. A delação não pode ser mais uma obra inacabada que a Odebrecht contrata com o governo.

A composição polifônica precisa ser entregue ao público. Depois do carnaval, vá lá. Mas, pelo menos, no início do ano novo alternativo, que começa na Quarta-Feira de Cinzas.

*Jornalista

Popularidade? ‘Ela virá!’- Eliane Cantanhêde

Popularidade? ‘Ela virá!’- Eliane Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo

Diz o velho ditado que “alegria de pobre dura pouco”, mas a do presidente Michel Temer também anda durando muito pouco e, nesta semana pré-carnaval, ele foi da euforia com a economia à apreensão com a política em questão de horas tanto na quarta quanto na quinta-feira. E isso não vai parar tão cedo.

Temer está muito satisfeito com os dados da inflação, juros, contas públicas, arrecadação e emprego em São Paulo. Também está animado com a recuperação da Petrobrás e com os planos do BNDES, apresentados a ele nesta semana pela presidente Maria Silvia Bastos. “É a confiança de volta”, diz Temer, elogiando a guinada do BNDES para estimular as pequenas e médias empresas, recuperar o “S” de social e selar parcerias com Estados e municípios para saneamento básico.

Maria Silvia, aliás, esteve em Brasília para uma reunião sobre... reforma tributária. Temer, que tem alto índice de vitórias e apoios em torno de 80% no Congresso, tinha priorizado a flexibilização das regras trabalhistas e a reforma da Previdência, mas, ao analisar as condições políticas favoráveis, decidiu ir além e remexer também a questão tributária. Desde Itamar Franco se fala nisso, fazer é que são elas...

Até agora, quem capitaliza politicamente os sinais positivos da economia é Henrique Meirelles, da Fazenda, com uma profusão de entrevistas, eventos abertos, reuniões com políticos e até uma previsão de crescimento para 2017 que, por enquanto, está mais na seara da vontade do que da realidade.

E a sua popularidade, presidente? Temer, que amarga em torno de 10% de aprovação, índice constrangedor e preocupante, sabe que não é exatamente carismático, não tem discurso inflamado e nunca conseguiu (nem quis) fazer o típico teatro eleitoral dos abraços e tapinhas nas costas. Mas responde com um sorriso enigmático e uma exclamação: “Ela virá!”. Em seguida, teoriza: “Populismo é fugaz, vai e volta, mas popularidade é reconhecimento”.

Até por acreditar que a popularidade “virá”, o presidente fica incomodado com as notícias do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dia sim, dia não, sobre a cassação da chapa Dilma-Temer: “Eu preferiria que isso acabasse logo, que julgassem e pronto, porque fica sempre essa dúvida, essa insegurança”, disse ele, pouco depois de saber que as delações da Odebrecht serão admitidas no processo.

Claramente feliz com a economia e com diferentes ministérios, Temer não tem lá grandes motivos para comemoração na política, que funciona na base do “cobertor curto”. Passou uma quarta-feira feliz com os juros e a arrecadação, mas foi dormir com a demissão de José Serra do Itamaraty. Acordou na quinta com o nome de Osmar Serraglio para a Justiça, mas já na sesta enfrentava duras reações do próprio PMDB e dos mineiros da base aliada. Vai ter de esticar o cobertor para Minas...

Uma coisa, porém, é certa: o alívio de Temer com a normalidade das ruas. Quando assumiu, os movimentos ligados ao PT iriam incendiar o País. Quando anunciou a reforma da Previdência e das leis trabalhistas, as centrais sindicais iriam explodir as ruas. Quando acenou com a modernização do ensino médio, os petistas na educação fariam um inferno. Nada disso se confirmou. E, na avaliação do presidente, cada dia ficará mais difícil se confirmar.

Quanto mais a economia ajudar, mais o Congresso votará as reformas e mais sua popularidade tenderá a melhorar. É uma visão otimista, mas se o próprio presidente não for otimista, quem mais será?

Derradeira vitória. Temer vetou a suspensão de vistos para turistas dos EUA, Canadá, Austrália e Japão, que era defendida pelo Turismo, com apoio da área econômica. Ele privilegiou a tese da reciprocidade, tão cara ao Itamaraty e a José Serra.

Abram alas para o Brasil brasileiro - Roberto Freire

Abram alas para o Brasil brasileiro - Roberto Freire

- Blog do Noblat

Manifestação cultural que tem relação direta com a nossa própria identidade nacional, o carnaval talvez seja a maior festa popular do planeta. Os festejos durante os dias de Momo mobilizam os brasileiros de norte a sul do país, mostrando a capacidade de expressão artística do nosso povo e uma alegria genuína que contagia a todos. Poucos países podem se orgulhar por ter um evento dessa magnitude, com tanta diversidade, que diz muito sobre o nosso jeito de ser. O carnaval, definitivamente, tem a cara do Brasil.

Durante a minha juventude, brinquei muitos carnavais ouvindo frevo e fazendo o passo pelas ruas de Recife e Olinda. Especialmente a partir de Pernambuco, essa forma de expressão musical, coreográfica e poética atravessou gerações e se transformou em um dos grandes símbolos do carnaval brasileiro, além de um dos mais emblemáticos patrimônios culturais e imateriais do país. No último dia 9 de fevereiro, aliás, foi comemorado o Dia do Frevo, uma das principais raízes da música nacional e que nos encanta há mais de 100 anos.

Falar em frevo significa destacar, fundamentalmente, a importância histórica do carnaval de rua em algumas regiões do Brasil. Concentrado até há pouco tempo em Recife, Olinda, Salvador e, de forma célebre, no Rio de Janeiro, esse tipo de manifestação carnavalesca vem surgindo a cada ano com grande força em outras cidades brasileiras, especialmente em São Paulo. Desde há muito, os paulistanos soterraram a injusta fama de “túmulo do samba”, que ficou no passado. Somente em 2017, de acordo com dados da Prefeitura, quase 500 blocos de carnaval se cadastraram para ocupar as ruas da maior metrópole do país.

Além do viés popular e de sua inequívoca importância artística, o carnaval exerce um efeito determinante sobre aquilo que se chama de economia da cultura. Segundo estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens (CNC), as atividades turísticas relacionadas ao evento devem movimentar nada menos que R$ 5,8 bilhões em todo o Brasil, impulsionando, sobretudo, o setor de serviços. No Rio de Janeiro, de acordo com dados da Associação Brasileira de Agentes de Viagem (Abav), são esperados mais de 1,1 milhão de visitantes durante o carnaval, o que representará uma arrecadação de R$ 3 bilhões com hospedagem, transporte e alimentação na Cidade Maravilhosa – palco do aclamado e mundialmente reverenciado desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí.

É importante ressaltar que o aquecimento da economia gerado pelo carnaval não se restringe aos dias de folia, mas perdura por todo o ano, gerando emprego e renda país afora. Centenas de milhares de pessoas trabalham diretamente nesse meio, exercendo as mais variadas atividades, todas elas relacionadas de alguma forma à maior festa popular do Brasil. Este é um ponto fundamental, especialmente quando o país dá sinais de que está superando uma das mais profundas recessões econômicas de sua história.

Nos próximos dias, com os festejos do carnaval, repetiremos o ritual de congraçamento, união e de celebração da alegria e diversidade que tão bem caracterizam a nossa sociedade. Neste momento em que o país se reergue e começa a voltar aos trilhos depois de tamanho desmantelo nos últimos anos, é chegada a hora de o povo tomar as ruas, desta vez para comemorar. Bom carnaval a todos. Abram alas para um dos maiores espetáculos da Terra.

*Roberto Freire é ministro da Cultura

A epidemia petista - O Mal da Odebrecht vai acometer, a partir da semana que vem, Lula, Dilma Rousseff, Antonio Palocci e Guido Mantega (e outras 300 pessoas). COM O ANTAGONISTA

A epidemia petista


O afastamento de Eliseu Padilha do governo, a fim de tentar poupar Michel Temer, revela de uma vez por todas que os delatores da Odebrecht disseram a verdade.
Ou meia-verdade.
O Mal da Odebrecht vai acometer, a partir da semana que vem, Lula, Dilma Rousseff, Antonio Palocci e Guido Mantega (e outras 300 pessoas).

O plano de Temer para salvar os estados - com O Antagonista

O plano de Temer para salvar os estados


Chegou hoje ao Congresso o projeto de lei do governo de Michel Temer que estabelece o chamado Regime de Recuperação Fiscal para os estados.
AQUI está a íntegra da proposta.
Para terem suspensas as dívidas com a União por até três anos, as unidades da Federação terão de conter despesas de todas as formas.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Lula é lider — em rejeição

Lula é lider — em rejeição

Com O Antagonista

O Instituto Paraná Pesquisas foi às ruas para saber a opinião dos brasileiros sobre os "presidenciáveis": o comandante máximo, de fato, aparece em primeiro lugar.
Mas o quesito é rejeição:

Lula, o novo Maluf - com O Antagonista

Lula, o novo Maluf


Lula está cada vez mais parecido com Maluf... até no papel de "candidato menos querido" nas pesquisas.
Assista ao vídeo da entrevista deMurilo Hidalgo, do Instituto Paraná Pesquisas, a Madeleine Lacsko.

ESTÁ DIFÍCIL ACOMPAN

ENTREVISTA COM ROBERTO JEFFERSON - " LULA QUER SER PRESO PARA POSAR DE VÍTIMA" - VEJA.COM



Depois de uma temporada preso e uma luta feroz contra um câncer no pâncreas, o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB) prepara o retorno à cena política. Decidiu disputar uma vaga na Câmara dos Deputados no ano que vem - resta saber se pelo Rio de Janeiro, seu estado de origem, ou São Paulo. Condenado por corrupção no mensalão, ele aguarda apenas a decisão da sua filha, a deputada Cristiane Brasil, que estuda se candidatar ao Palácio Guanabara. Aos 63 anos, Jefferson recebeu VEJA para uma conversa em seu escritório no Rio: opinou sobre a operação Lava-Jato, desafiou Lula a ser candidato em 2018 e admitiu que o bloco do Centrão usou métodos ilegais para derrubar o PT do poder.
Depois de cumprir pena por corrupção e lavagem de dinheiro, o senhor anunciou que pretende voltar a se candidatar em 2018. Por que? Estou dentro da faixa etária que não deve se aposentar segundo a reforma da previdência. Falando sério, acho cedo para me recolher em casa, tenho muito a dar ainda. Minha carreira foi abruptamente interrompida no passado. Já tive a sentença do Joaquim Barbosa no processo do mensalão. Agora quero saber a avaliação do povo. Esta sim, soberana, muito acima da dele.
Acha que Lula também tentará voltar a disputar eleições? Torço para que tente de novo o Planalto. Esta sim será a grande sentença moral que ele irá receber: a derrota nas urnas. Vai valer muito mais do que um mandado de prisão expedido pelo Moro. Contra uma decisão judicial, Lula poderá sempre dizer que é vítima. A cara de pau para inventar discursos é imensa. Já ouvi recentemente que o Moro estava trabalhando para a CIA e que a Dona Marisa foi assassinada.
Não considera que ele pode ser preso antes da campanha? No fundo, é o que ele quer. Lula deseja ser preso para poder ter o discurso de que foi perseguido pela caneta togada do Moro. Ao contrário de 2005, no auge do mensalão, desta vez acho certa a tese do FHC. É importante deixá-lo sangrar até a eleição. Se Lula for preso, vai ter romaria com bandeira de foice e martelo todo dia na porta da penitenciária em Curitiba.
Na época do mensalão, o senhor dizia que Lula era inocente... É verdade. Na CPI, falei: “Sai daí Zé, antes que faça culpado um homem inocente”. Hoje é diferente, são muitas as evidências: apartamento no Guarujá, sítio em Atibaia e o enriquecimento dos filhos. Mesmo assim, o Moro precisa ser inteligente e não prendê-lo. Lula precisa ouvir um basta da sociedade.
O que o senhor vai dizer para o eleitor quando for cobrado pelo envolvimento no mensalão? Vou perguntar se as pessoas acharam justa a sentença. Também quero saber se consideram que tive alguma importância na transformação que está ocorrendo no país. Fiz uma luta solitária no momento mais forte do PT no poder.
Então considerou injusta a sua condenação pedida pelo ex-ministro Joaquim Barbosa no processo do mensalão? Sim, ele exagerou. Uma coisa é o delito eleitoral, que eu sabia que tinha cometido. Outra é a corrupção. Encarei com serenidade aquela conduta histriônica do Joaquim Barbosa. Ele jogou para a plateia, só não esperava que anos depois apareceria o Sérgio Moro. Sem televisão ao vivo, um juiz de vara de primeira instância se tornou muito maior do que ele. Fico satisfeito de ver que o Joaquim Barbosa não passou para a história como o maior magistrado do país.
Essa tese de separar caixa dois e corrupção não é uma conversa conveniente para políticos apavorados com a delação da Odebrecht que vem por aí? Acho que tem que haver a separação do joio do trigo. Uma coisa é quem recebeu dinheiro por corrupção para facilitar negócio para empreiteira. Outra, o financiamento eleitoral. Não se pode chamar caixa dois de corrupção.
Mas essa não é uma linha muito tênue? Não. Caixa dois houve no Brasil o tempo todo, as empresas não participavam de campanha de outra forma. Elas sempre queriam dar 10% por dentro e 90%, por fora. Ninguém queria ficar exposto e aparecer em prestações de contas bancando um candidato que depois poderia perder a eleição.
Foi este o seu caso? Sim. Recebi 4 milhões de reais em caixa dois na eleição de 2004 em um grande acordo com o PT. Tudo entregue na sede do PTB pelo Marcos Valério em malas de dinheiro. Comprometi-me a não lançar candidato no Rio de Janeiro e São Paulo. Agora isso virar corrupção ativa?
E não é? Não. Corrupção é quando existe algum ato do executivo envolvido. Quando um agente público faz ou deixa de fazer algo na administração que lesa a sociedade. Eu não tinha como saber naquela época de onde o dinheiro vinha.
O eleitor está do seu lado nesta tese? Claro. Do taxista à caixa do supermercado, todos me cumprimentam hoje em dia. Recentemente, fui almoçar com a minha mulher em um restaurante em Copacabana e fui aplaudido de pé. Muitos dizem: “Obrigado por derrubar o José Dirceu, senão teríamos virado uma Venezuela”.
Até onde vai a operação Lava-Jato? Para o bem dela, acho que está na hora de parar de inventar. É hora de fechar o pacote, senão vira uma guerra napoleônica. Chega de aceitar novas delações. O país tem que andar para frente.
“É hora da Lava-Jato parar de inventar. Senão vira uma guerra napoleônica”
Qual a diferença entre a Lava-Jato e o mensalão? O mensalão era mais genérico e não tinha provas tão densas. Contas no exterior foram rastreadas com valores monstruosos. Ajudou também o fato de um monte de madame usar cartão de crédito para comprar roupa de grife.
A Lava-Jato desvendou um esquema de recursos montado por PT e PMDB. Não é contraditório você e seu partido baterem apenas nos petistas? Não. O governo Temer não está envolvido na Lava-Jato. Por enquanto só há fumaça contra os integrantes do governo, mas não há fogo.
Temer não está tentando proteger seu governo com a indicação de Alexandre de Moraes para o Supremo? Não há blindagem neste tipo de escolha. Por exemplo: quando o Lula nomeou o Joaquim Barbosa naquela cota para negros que ele criou no Supremo, jamais se imaginou que ele condenaria petistas. Os ministros Luiz Fux e Dias Toffoli também agiram com independência mesmo depois de indicados pelo PT. Tenho certeza que Alexandre de Moraes seguirá pelo mesmo caminho. Ele é um profissional extremamente qualificado. Não tentará agradecer a indicação dando canetadas contra evidências em processos.
Roberto Jefferson canta 'O que tinha que ser', de Tom Jobim. O hobbie se tornou uma terapia
O seu partido, o PTB, participa do Centrão desde os tempos de Eduardo Cunha. Vocês continuarão no grupo? Não, chegou a hora de passar uma borracha nisso. Aquilo foi um grupo montado para derrubar a Dilma Rousseff usando os métodos de guerrilha das FARCs: vendendo entorpecente, sequestrando e extorquindo. O mesmo jogo que o PT sempre praticou.
E por que a maioria do sistema político se aliou a estas FARCs durante o impeachment? Porque eles eram um mal menor ao país. O mal maior era o PT continuar no comando do Palácio do Planalto. Usaram instrumentos legais e ilegais? Sim, usaram. Mas chegou a hora de celebrar a paz como na Colômbia. Tem que desarmar todo mundo.
Qual o candidato favorito a vencer a eleição presidencial de 2018? Geraldo Alckmin. Faz um governo muito sério em São Paulo e emplacou o João Dória no primeiro turno.
Mas como fica o Aécio, atual presidente do PSDB? Este é um grande amigo. No período em que estive preso, sempre me enviou uma palavra de solidariedade através da minha filha. O problema é que ele perdeu as duas últimas eleições em Minas Gerais.
E o Serra, que agora deixou o governo? É um grande pensador, mas se afastou da gestão diária de um orçamento. O grande executivo tucano é o Geraldo.
Marina Silva tem chance em 2018? Não acho. O partido da Marina é um puxadinho do PT. Ela faz aquela pose de Madre Teresa de Calcutá, mas foi ministra desse governo petista que não teve ética alguma. Também não ficou sabendo de nada?
“O Centrão atuou como as FARcs para derrubar a Dilma Rousseff. Extorquindo, sequestrando, o mesmo jogo que o PT sempre praticou”
E a febre Bolsonaro? Este terá um grande desempenho. Pode chegar a mais de 20% dos votos. Sozinho e em um partido nanico, está fazendo um marketing impressionante na internet. É uma espécie de Trump brasileiro, representando a antítese da nova ordem mundial globalizante. Vai dar trabalho.
No Twitter, o senhor tem se caracterizado por algumas posições semelhantes as do Bolsonaro. Depois de um período aliado ao PT, é neste espectro político que o senhor se sente mais à vontade? Nunca fui de esquerda. Perdi por 32 a 1 na executiva nacional do PTB a votação que tratava desta aliança. Estava claro que não dava para misturar água com azeite. Foi um grave equívoco apoiar o governo Lula em 2003. O PT fez um projeto de poder populista. Queriam se perpetuar no poder de qualquer jeito.
O PT acabou? De jeito nenhum e nem desejo isso. O PT tem um papel importante. São melhores na oposição do que governando.
O que dizer sobre a descoberta de que Sérgio Cabral mantinha contas no exterior com saldo de 100 milhões de dólares? Nunca imaginei um esquema tão grande. Sinto muito pelo pai e pelos filhos dele. O que pesou para Cabral foi a sua falta de liturgia no exercício de um cargo público. Expôs-se demais em festas. Colocou guardanapo na cabeça para dançar em restaurantes. Isso demoliu o patrimônio moral dele.
Depois do seu período no cárcere, que tipo de conselho o senhor daria para o presidiário Cabral? Ele tem que se reaproximar de Deus. É importante se reconciliar com valores religiosos e morais para que possa pacificar o seu coração. Cabral precisa admitir seus erros e pedir perdão para Deus e toda a sociedade. E vai ter que se preparar psicologicamente: pelo caminho que as coisas vão, a sentença judicial será muito dura contra ele.
O que mais chamou a sua atenção na cadeia? Vi muitas coisas lá dentro. Eu que sou católico, aprendi a respeitar o trabalho feito pela igreja Universal. Também vi o PSOL trabalhando a favor de marginais sempre com o discurso safado de que a culpa de existir um estuprador ou homicida é da sociedade.
O que o senhor fazia para passar o tempo? Lia livros e assistia TV. Vi o Brasil perder de 7 a 1 para a Alemanha na cela. Certa vez, acharam que eu ia me matar com extensores, mas estava apenas me preparando para malhar. O banho frio, o boi (buraco no chão que serve como vaso), nada disso me afetou. O mais difícil mesmo foi ficar isolado do mundo e longe da família por longos 14 meses.
Foto Marcos Michael