quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Perdedores e vencedores - MERVAL PEREIRA

Perdedores e vencedores - MERVAL PEREIRA

O Globo - 29/09
Se tudo acontecer como as pesquisas eleitorais indicam, as eleições municipais já têm um perdedor indiscutível, o PT, um vencedor provável, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e um derrotado indireto, o governo Temer, que inventou Marta ex-Suplicy como candidata alternativa em São Paulo.

Sua queda se deve mais às cinzas petistas do que à nova realidade peemedebista, embora seja mais fácil para ela atribuí-la à “herança maldita” de Temer, com suas reformas impopulares anunciadas em meio a uma algaravia de desinformações.

Na verdade, poucos a identificam com o governo Temer, mas os antigos 30% de eleitorado petista estão hoje divididos entre o PSOL de Erundina e a candidata do PMDB, que não conseguiu atrair a classe média para ampliar seu eleitorado.

O prefeito Fernando Haddad dificilmente conseguirá se recuperar da crise de sua própria gestão e de seu partido, perdendo eleitores na periferia para seus dois adversários mais bem colocados, João Doria e Celso Russomano.

O problema de Marta parece ser mais de inadaptação à sua nova posição no mercado eleitoral, uma questão de identidade. Já João Doria conseguiu encontrar o caminho do meio numa eleição que sempre foi polarizada na cidade de São Paulo entre direita e esquerda, ou o que sobrou delas, e tirou votos até do PT na periferia. E não teve competidores num eleitorado de classe média que é antipetista, papel que Marta tentou assumir ao dizer que nunca foi de esquerda. O governador Geraldo Alckmin emergirá dessa eleição fortalecido dentro do PSDB, mesmo que o candidato tucano de Belo Horizonte, João Leite, confirme o favoritismo.

Alckmin inventou Doria, e Aécio Neves sairá vencedor com Leite, mas não a ponto de ser atribuída a ele a vitória. O que Aécio fez em Belo Horizonte é o que melhor sabe fazer: costurar alianças políticas. Após a eleição, os dois duelarão dentro de suas características, e terão também que se livrar de acusações que os perseguem, Aécio na Operação Lava-Jato, Alckmin com as denúncias de corrupção em obras de governos tucanos em São Paulo.

De qualquer forma, tudo indica que o PSDB sairá fortalecido das eleições municipais, enquanto o PT sofrerá uma dura derrota. Só deve eleger um prefeito de capital, o de Rio Branco, e perderá a grande maioria dos prefeitos das cidades com mais de 200 mil habitantes. Deixará de ser o terceiro partido em prefeituras do país, com mais de 600, para começar praticamente do início.

PMDB e PSDB, que já eram os dois maiores partidos em termos de prefeituras, ganharão em número e em qualidade, especialmente os tucanos em São Paulo. No Rio de Janeiro, na reta final da eleição, a carta da religião está sendo jogada com toda a força contra a ascensão do bispo Crivella.

De um lado a Igreja Católica entrou na disputa para evitar ser usada por Crivella que, no afã de se blindar das críticas à Igreja Universal, anda distribuindo santinhos com uma foto sua e de dom Orani. De outro, os adversários que lutam entre si para chegar ao segundo turno tentam convencer o eleitorado de que a Igreja Universal está usando seus púlpitos como palanque. A internet está coalhada de vídeos de pastores da Universal pedindo aos fiéis que votem em Crivella.

A disputa pelo voto útil, tanto na esquerda quanto na centro-direita, terá um palco excelente no debate de hoje à noite na TV Globo, que se transformou no ponto crucial dessa campanha eleitoral para ver quem vai com Crivella para o segundo turno.

Na verdade, a divisão pode ser feita em três grupos: a turma do Prefeito Eduardo Paes, que apoia Pedro Paulo, a turma da esquerda, dividida entre Freixo e Jandira e lateralmente Molon, e a turma dissidente da Prefeitura, que luta contra os dois outros grupos, formada por Índio da Costa, Osorio, e mais remotamente, Bolsonaro.

É uma eleição fundamental para o PMDB, que não quer perder a prefeitura da segunda maior cidade do país para se manter em condições de disputar a presidência da República em 2018. O prefeito Eduardo Paes é um coringa importante nesse jogo eleitoral, e tenta recuperar um prestígio político que se desgastou devido à crise financeira que atingiu o estado do Rio, também governado pelo PMDB, e a erros pessoais que deveriam ter sido evitados, a começar pela escolha de um candidato pesado pelas controvérsias.

Pode ser que a máquina política e a ainda bem avaliada gestão na prefeitura levem Pedro Paulo ao segundo turno, mas a tarefa parece mais difícil do que imaginavam.

Economia criativa e o futuro do (nosso) trabalho - ANA CARLA FONSECA

Economia criativa e o futuro do (nosso) trabalho - ANA CARLA FONSECA

ESTADÃO - 29/09

Reinventar a educação, apoiar o empreendedorismo e estimular novos pensamentos passou a ser uma atividade vital nesse novo mundo


Foi graças a ela que a roda foi inventada, obras de arte sublimes foram concebidas e descobertas científicas revolucionárias vieram à luz. Ingrediente básico da inovação, a imprescindível criatividade move a humanidade desde tempos imemoriais.

Mas foi a partir de meados da década de 1990 que ela se firmou (ou voltou a se firmar) como o ativo mais diferencial da economia. Sua grande aliada nesse processo foram as tecnologias digitais.

Basta relembrar o que era o mundo há 20 ou 30 anos - sem wifi, redes sociais, aplicativos ou internet das coisas - para perceber o abalo sísmico que as tecnologias digitais provocaram nas relações sociais, na globalização, na competitividade e, por decorrência, na valorização da criatividade.

Afinal, em um mundo cada vez mais interconectado, as informações e a tecnologia circulam com velocidade inaudita em escala planetária e os produtos e serviços passam a ser cada vez mais semelhantes.

Se tudo é tão parecido, o antídoto a concorrer por preços baixos é gerar diferencial agregando valor - e, para isso, só com criatividade. É essa a base da economia criativa, termo que entrou na moda mas é na verdade um novo paradigma econômico.

O primeiro país que entendeu seu potencial como estratégia de desenvolvimento, ainda nos idos de 1997, foi o Reino Unido. Um primeiro exercício de mapeamento indicou que havia um conjunto de setores - da moda ao software, do editorial ao design - que cresciam mais rapidamente do que os demais, eram mais atraentes a jovens e tinham maior valor agregado. Batizados de “indústrias criativas”, são setores cuja matéria-prima é a criatividade. Códigos e livros há muitos, mas a cada vez que se escreve uma linha de um deles, há algo de único nesse novo formato de criação.

Uma das grandes belezas das indústrias criativas é a capacidade de dinamizar setores tradicionais da economia, como em um salutar efeito dominó.

É o caso do impacto potencial de novas propostas da moda no setor têxtil, da arquitetura na construção civil, do design em virtualmente toda a economia. É isso que constitui a economia criativa - atividades econômicas que geram produtos e serviços com diferencial. Mas se antes era vista como uma oportunidade, a economia criativa agora é uma necessidade.

A vasta maioria dos estudos voltados ao futuro do trabalho - assinados pelo Fórum Econômico Mundial e pela Economist Intelligence Unit, para nos atermos a alguns - constatam o que a prática já indica. Em um futuro cada vez mais próximo, a automação industrial poupará somente os trabalhos criativos (ou seja, não repetitivos) e os de inteligência social (baseados nas relações humanas). Os demais - inclusive os cargos executivos - deverão ser substituídos pela inteligência artificial. Constatam mais: hoje, muito se investe em tecnologia e menos em pessoas - mas quem criará as futuras tecnologias?

Diante desse quadro, reinventar a educação, investir em empreendedorismo, estimular a diversidade de pensamento, facilitar o ambiente de negócios e dar vazão a novos modelos de economia, como a compartilhada - passou a ser vital. Cidades, empresas e fundos passaram a investir em startups, aceleradoras, incubadoras, em escala inédita. A cidade de Paris, por exemplo, inaugurará em janeiro a Estação F, acolhendo mil startups.

As cidades mais avançadas nesse pensamento perceberam que, hoje em dia, não basta investir em parques tecnológicos padronizados com mesas de pebolim e espaços de cowork, ou abrigar essa efervescência criativa em uma bolha urbana.

Cidades que adotaram a economia criativa como estratégia vêm reconhecendo a importância de investir em um locus urbano que nutra, estimule e atice essa efervescência criativa, não apenas para somar novos ingredientes às receitas que cada trabalhador criativo pode inventar, mas também porque é nesses locais que quem respira e transpira criatividade quer estar.

Basta pensar em Barcelona, Londres, Berlim, Nova York - todas elas cidades sinestésicas, onde propostas arrojadas encontram oxigênio e nas quais a possibilidade de se encantar e inspirar no trabalho e fora dele é dada como certa. Porque a fronteira entre a vida e o trabalho é cada vez mais fluida e não há como ser criativo vivendo apenas em um ambiente apático.

Incorporar a economia criativa como base de desenvolvimento é fundamental para que saiamos da recessão em um patamar mais elevado, seja qual for a esfera de governo. Mas é no âmbito das cidades que estão as maiores chances de reinvenção, valendo-se da preciosa simbiose entre economia criativa e cidade criativa. É nisso que nossos futuros gestores municipais devem atentar - e nós, ao votarmos neles.

*ANA CARLA FONSECA É CO-COORDENADORA DO PEC/FGV DE ECONOMIA CRIATIVA E CIDADES E PROFESSORA DO MBA DE BENS CULTURAIS. TAMBÉM DIRETORA DA GARIMPO DE SOLUÇÕES

Eficientes na destruição - CARLOS ALBERTO SARDENBERG


O GLOBO - 29/09

Brasil do PT criou sistemas ineficientes e corruptos dos principais setores da economia aos mais simples serviços públicos


Quanto tempo, dinheiro, energia e criatividade o pessoal da Odebrecht gastou para montar e manter por tantos anos o tal “Departamento de Operações Estruturadas”? O sistema supervisionava, calculava e executava os pagamentos de comissões — propinas, corrige a Lava-Jato — referentes a grandes obras no Brasil inteiro e em diversos outros países. Considere-se ainda que os pagamentos deviam ser dissimulados, o que trazia o trabalho adicional de esconder a circulação do dinheiro e ocultar os nomes dos destinatários. Coloquem na história os funcionários que criavam os codinomes dos beneficiários — Casa de Doido, Proximus, O Santo, Barba Verde, Lampadinha — e a gente tem de reconhecer: os caras eram eficientes.

Nenhuma economia cresce sem companhias eficientes. Elas extraem mais riqueza do capital e do trabalho e, com isso, reduzem o custo de produção, entregando mercadorias e serviços melhores e mais baratos.

Pois o “Departamento de Operações Estruturadas” foi eficiente na geração de uma enorme ineficiência. Tudo aquilo é parte do custo Brasil — encarece as obras, elimina a competição, afasta empresas de qualidade e simplesmente rouba dinheiro público.

Há aqui dois roubos: um direto, o sobrepreço que se coloca nas obras para fazer o caixa que alimenta as propinas; o outro roubo é indireto e mais espalhado. Está no aumento dos custos de toda a operação econômica.

Na última terça, a Fundação Dom Cabral divulgou a versão 2016 do ranking mundial de competitividade, que produz em associação com o Fórum Econômico Mundial. O Brasil apareceu no 81º lugar, pior posição desde que o estudo é feito, atrás dos principais emergentes, bem atrás dos demais países do Brics.

Mais importante ainda: se o Brasil caiu 33 posições nos últimos seis anos, os demais emergentes importantes ganharam posições com reformas e mais atividade econômica. Prova-se assim, mais uma vez, que a crise brasileira é “coisa nossa”, genuína produção nacional.

Os governos Lula 2 e Dilma foram tão eficientes na geração do desastre quanto a Odebrecht com suas operações estruturadas. Uma política econômica que provoca recessão — por três anos seguidos — com inflação em alta, juros elevadíssimos e dívida nas alturas, tudo ao mesmo tempo, com quebradeira geral das maiores estatais — eis uma proeza que parecia impossível.

Para completar, a eliminação de qualquer critério de mérito na montagem do governo e suas agências arrasou a eficiência da administração pública e, por tabela, da empresa privada que tinha negócios com esse governo.

Em circunstâncias normais, numa economia de mercado, a empresa privada opera tendo como base as leis e as regulações que devem ser neutras e iguais para todos. A Petrobras precisava ter regras públicas para contratação de obras e serviços.

Em vez disso, o que a Lava-Jato nos mostrou? Um labirinto de negociações escondidas, operações dissimuladas, manipulações de lei e regras.

Às vezes, a gente pensa: caramba, não teria sido mais simples fazer a coisa legal? Sabe o aluno que gasta enorme energia e capacidade bolando uma cola eficiente e acaba descobrindo que gastaria menos estudando?

A diferença no setor público é que o estudo não dá dinheiro. A cola dá um dinheirão para partidos, seus políticos, amigos e companheiros.

Nenhum país fica rico sem ganhos de produtividade. O Brasil da era PT perdeu produtividade. Mas, pior que isso, criou sistemas ineficientes e corruptos desde os principais setores da economia — construção civil, indústria de óleo e gás — até os mais simples serviços públicos, como a concessão de bolsa-pescador ou auxílio-doença.

SOBRANDO DINHEIRO

Como o Brasil do pré-sal, a Noruega também descobriu enormes jazidas de petróleo. Também constituiu uma estatal — a Statoil — para extração e produção.

Mas os noruegueses tomaram a decisão de guardar a receita do óleo. Constituíram um fundo soberano, alimentado com os ganhos da Statoil, fundo este que passou a investir sobretudo em ações pelo mundo afora. Esses investimentos deram lucros — e este dinheiro, sim, é gasto pelo governo. E o fundão é reserva para as aposentadorias.

O fundo norueguês é hoje o maior do mundo — tem um capital investido de US$ 880 bilhões.

Já o Brasil gastou antes de fazer o dinheiro.

O pré-sal está atrasado, perdemos o boom dos preços astronômicos do petróleo e a Petrobras é a empresa mais endividada do mundo. Outro dia mesmo, vendeu um poço para a Statoil, para fazer caixa. E Dilma dizia que estava construindo o futuro. De quem?

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

REFORMA DO TRABALHO - MIRIAM LEITÃO

Reforma do trabalho - MÍRIAM LEITÃO

O Globo - 29/09

Mesmo com o desemprego em 11,6%, a reforma trabalhista saiu da lista de prioridades do governo e já circulam rumores de que pode até ser deixada de lado. Diminuir as distorções que regulam o mercado de trabalho seria uma opção para estimular as contratações neste momento de crise. A principal mudança defendida por especialistas é permitir que trabalhadores e empregadores negociem antes de ir à Justiça.

Os economistas José Márcio Camargo, da PUC-Rio e Opus Gestão de Recursos, e Hélio Zylberstajn, do Departamento de Economia da USP e coordenador do projeto Salariômetro, da Fipe, têm visão semelhante sobre o principal problema das leis trabalhistas do país: a negociação acontece apenas no final do contrato, quando no meio do litígio uma das partes recorre à Justiça em busca de alguma compensação.

— Antes, a negociação é proibida; depois, pode. O juiz sempre propõe um acordo e, quando consegue, é porque as leis foram flexibilizadas. Isso é uma distorção enorme. A Justiça, na prática, está fazendo as leis, e as empresas ficam sem saber exatamente qual o custo de cada funcionário. Ele poderá ir à Justiça, que irá arbitrar o que quiser — diz José Márcio Camargo.

Zylberstajn defende que a CLT seja mantida, mas que abra-se uma brecha para que empresas e trabalhadores possam negociar por fora da lei. Assim, haveria duas modalidades de relação trabalhista: a negociada e a que ficaria dentro das regras atuais.

— Acho que deveriam criar um artigo zero, para vir antes de tudo, e colocar a negociação na frente. Não adianta tentar modernizar a CLT, porque isso só vai aumentar o número de regras, e o mercado de trabalho é dinâmico. Deve-se deixar ela como está, mas prevalecendo o que for negociado — afirmou o economista.

Camargo dá um exemplo de como a CLT gera distorções. O balneário de Búzios, no estado do Rio, tem um aumento de cerca de 40% de população nos finais de semana, mas parte do comércio fecha as portas a partir de sábado ao meio-dia, porque a hora trabalhada nos finais de semana custa o dobro, segundo as leis. Com isso, os comerciantes perdem, porque deixam de vender; os consumidores ficam sem o serviço quando mais precisam; e os trabalhadores deixam de ganhar com as comissões nas vendas.

— Por que o dono da loja não pode sentar com seu funcionário e estabelecer que ele trabalhará no final de semana e depois irá folgar de segunda a quarta-feira? O setor de serviços não é como o setor industrial, que pode estocar mercadoria. É preciso que as regras sejam flexibilizadas para que o serviço seja prestado no período de maior demanda — afirmou.

Os dois economistas lembram de regras que não fazem sentido e apenas expõem o excesso de regulação: a partir dos 50 anos de idade, o trabalhador não pode dividir o período de férias, mesmo que queira; o pagamento de participação nos lucros e resultados, mecanismo usado para estimular a produtividade, não pode ser pago mensalmente; e o horário de almoço não pode ser reduzido, mesmo que o empregado queira chegar mais cedo em casa para ficar mais tempo com a família.

— Há casos em que a empresa coloca transporte à disposição do trabalhador, para que ele não tenha que se preocupar com trânsito e transporte público. Mas aí vem a Justiça e diz que dentro do ônibus já começa a contar as horas trabalhadas. Se a empresa quer ajudar, é prejudicada. Se não ajuda, o trabalhador chega cansado e tem produtividade menor — afirmou Zylberstajn.

Outra mudança defendida por José Márcio Camargo é sobre terceirização. Ele diz que se as regras brasileiras estivessem em vigor nos Estados Unidos, os americanos não teriam inventado e comercializado o smart phone, porque o aparelho teria um custo absurdamente alto. Hoje, a terceirização só pode acontecer quando não é atividade fim da empresa brasileira, mas a decisão sobre o que ée o que é não é atividade fim acaba sendo arbitrada pela Justiça:

— O aumento do custo de produção é muito grande quando a empresa precisa fazer tudo dentro dela.

A CLT envelheceu, hoje trava o emprego mais do que o protege, e 40% dos trabalhadores brasileiros estão na informalidade. O desemprego permanece altíssimo. Mas o ímpeto de mexer nesse tema espinhoso está arrefecendo no governo Temer.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

POR QUE A ESQUERDA É TÃO VICIADA EM FALAR DE ABORTO? - Flavio Morgenstern

A hashtag #PrecisamosFalarSobreAborto dominou o Twitter. Por que a esquerda, que começou defendendo "proletários", hoje tanto prega o aborto?
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Hoje bombou no Twitter a hashtag #PrecisamosFalarSobreAborto. A temática do aborto deixou de ser periférica ou juízo de valor em meio a propostas mais concretas, por seu apelo popular quase nulo, para estar sob os principais holofotes dos debates políticos. A esquerda empurrou a agenda progressista do aborto para o proscênio, dando a impressão hoje de que não há tema político mais urgente na boca do povo do que a legalização do aborto.
O maior filósofo político de todos os tempos, Eric Voegelin, recomendava o exercício da Anamnese, o “esquecimento” das nossas próprias convicções e idéias estabelecidas, para conseguirmos enxergar a realidade de maneira mais pura, buscando a origem de nossos pensamentos – aquilo que Thomas Sowell demonstra bem sobre idéias de direita e de esquerda em Conflito de Visões. Parece que o caso com o aborto nunca foi feito no Brasil.

Proletários vendem a prole

A esquerda surge da idéia de que a Revolução Industrial permitiu um avanço em relação à aristocracia feudal, mas gerou uma nova classe social: os proletários, pessoas que só tinham a prole para “vender” como força de trabalho, na miséria associada à Revolução Industrial.
O mundo anterior à industrialização, contudo, era um mundo em que tais crianças nasciam e morriam às pencas no ambiente agrário e de “harmonia com a natureza” sem penicilina e tantas invenções da Revolução Industrial, sem as quais uma simples infecção ou virose geraria uma morte lenta e dolorosa.
A mortalidade infantil pré-Revolução Industrial em algumas regiões européias ultrapassava os 80%. Aquelas crianças que vemos em filmes que formam nosso imaginário (e, por conseguinte, nossos sentimentos) sobre o “horror” da Revolução Industrial eram, na verdade, sobreviventes. A industrialização e suas benesses permitia que a tradicional extensa prole campesina sobrevivesse, o que nunca foi esperado pelas camadas desassistidas da população.
É a primeira lição que Ludwig von Mises, o maior economista do mundo, ensina em suas palestras para não economistas, compiladas no opúsculo As Seis Lições. Com a definição correta dos termos, a mágica do sentimentalismo da visão até hoje ainda derivada do marxismo se obnubila. Ao contrário do apocalipse profetizado por Marx, ao invés de os ricos ficarem mais ricos e os pobres mais pobres com o capitalismo, a renda média do trabalhador inglês foi multiplicada por 40 em um século de Revolução Industrial.
Contudo, o apelo psicológico em falar de “proletários”, mesmo quando eles rapidamente deixaram de existir (não sendo sinônimo de “pobres”), permanece. Até Ernesto Laclau, marxista argentino envolvido nos modelos de agitação política como junho de 2013, hoje preconiza que é o discurso que cria a classe, já que elas não existem na vida real. Assim, qualquer rico pode se considerar “proletário” para manter a propaganda.
Mas como uma ideologia que nasceu com o apelo ao sofrimento da prole pode, no golpe seguinte, defender o aborto como uma causa progressista?

O Estado se torna maior do que a família

Mesmo naquilo que foi chamado de Absolutismo pelos historiadores, o núcleo da sociedade permaneceu sendo a família. Já no Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels diagnosticam que a nova sociedade progressista precisa retirar o poder da família, com todos os seus valores tradicionais, para transferir toda a organização social para o Estado. Os filhos não seriam mais criados por pai e mãe, amando avós e parentes, mas sim em barracões, coletivamente, como “companheiros”.
O “modelo de gestão” tentou ser aplicado já no início da Revolução Russa: Orlando Figes, talvez o maior estudioso contemporâneo do período soviético, conta em Sussurros: A vida privada na Rússia de Stalin, que a tentativa de aplicar o socialismo na Rússia agrária sempre esbarrava na família, famélica, mas rigorosamente contrária ao totalitarismo socialista:
Como viam os bolcheviques, as famílias eram o maior obstáculo à socialização das crianças. “Por amor a criança, a família a torna um ser egotista, encorajando-a a ver-se como o centro do universo”, escreveu a pensadora educacional soviética Zlata Lilina. Teóricos bolcheviques concordavam com a necessidade de substituir esse “amor egotista” pelo “amor racional” de uma “família social” mais ampla. O ABC do comunismo (1919) vislumbrava uma sociedade futura na qual os pais deixariam de utilizar a palavra “eu” em referência a um filho, pois se importariam com todas as crianças na comunidade. (…)
A noção pedagógica de hoje, como o debate público brasileiro escancarou, voltou ao modelo soviético que nem mesmo a União Soviética conseguiu consubstanciar. Pedagogos do porte de Marilena Chauirepetem o que apenas a China maoísta e a Coréia Norte dos Kim conseguiu consubstanciar.
Em uma sociedade em que o Estado é controlador e diretor, e não o núcleo familiar, a empatia pelos entes e pelos infantes e mais fracos, o “amor egotista”, é substituída pelo pragmatismo do planejamento central, o “amor racional”. Nesta sociedade, o valor do indivíduo não é mais sentimental, como na aristocracia ou no romantismo: o indivíduo é visto como peça de uma engrenagem, pela sua utilidade para o sistema.
Se um indivíduo não poderia ser produtivo – por exemplo, nascesse com deficiências de mobilidade – seu destino era ser abortado da sociedade. Ao invés da empatia, do pathos – a paixão cristã, o “Vinde a mim, todos cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei” (Mt 11:28) –, tratava-se antes de auferir o indivíduo pelo seu valor para o Estado, como ser produtor e trabalhador para a sociedade comum.
O racionalismo da Revolução Francesa até a Revolução Russa esquece-se que racionalmente, há argumentos para mandar deficientes físicos, filhos indesejados, idosos e doentes para a vala comum. O que os mantém vivos nas sociedades judaico-cristãs não são argumentos: é a empatia.
Da mesma forma que a escravidão permitia condições sub-humanas para os escravos negando sua vida, o Estado diretor pode negar o valor de “vida” a qualquer “amontoado de células” que julgar conveniente, escorraçando a família a uma cria do capitalismo – para Marx, a família só existe para proteger a propriedade; a Escola de Frankfurt que nota o erro e inverte a noção marxista de infra-estrutura e superestrutura, passando a atacar a família, e não a propriedade, ao perceber corretamente que esta que só existe para proteger aquela.
Rapidamente, com a noção de sagrado e profano imiscui-se em uma só, a vida se torna matéria-prima (“força de trabalho”), gerenciada em planilhas e os Estados totalitários e seu controle social absoluto legalizam o aborto com rapidez espantosa. Esta é uma das críticas de Nassim Nicholas Taleb em Antifrágil: coisas que ganham com o caos: sistemas baseados em alma, e não apenas em pele, acabam possuindo uma moralidade e um arranjo social incrivelmente superior.
Nossa pedagogia, que de Zlata Lilina a Marilena Chaui (ambas ainda em nível pré-Escola de Frankfurt) se foca tão fortemente na destruição da família para o controle estatal absoluto, acha estranho a noção de que o nazismo, mesmo sendo abreviação de nacional-socialismo, seja uma espécie de socialismo (foi apelidado a posteriori de “extrema-direita” justamente por socialistas como E. P. Thompson, um dos que notou ser impossível distinguir na realidade proletários de burgueses).
O nazismo, “gêmeo heterozigoto” do socialismo, segundo feliz expressão do historiador Pierre Chaunu, praticou exatamente o mesmo que o socialismo com sua sociedade dirigida, apenas seguindo o “princípio do nacionalismo”, como explica o fascista convertido do socialismo Robert Michels.
Para os nazistas, os “elementos estrangeiros”, como judeus e ciganos, seriam uma não-vida, algo inútil e improdutivo (ciganos) ou êmulo do sistema (judeus e seu capitalismo mercantil burguês). Como mesmo “arianos” com deficiências físicas, no sistema de guerra, eram vistos como pouco menos do que cartas a serem descartadas, a “solução final” para judeus e ciganos não poderia ser muito diferente de um aborto coletivo, uma eutanásia en masse.
Socialistas e nacional-socialistas, voltando à adoração aos rituais de sacrifício de Moloch, passam à admiração exabundante do corpo. Uma das primeiras medidas de ambos é a legalização do sacrifício de “fetos”, considerados “não pessoas” para o sistema. O aborto, ao contrário do que a propaganda de esquerda tenta fazer crer, nasce como uma proposta racista.

Aborto e racismo

Se o Estado deve gerir a sociedade, e não mais o “amor egotista” da família e seus valores ultrapassados geridos pelo “capital” e pelo “ópio do povo”, a pragmática de uma “vida profissional” se sobrepõe à sacralidade de uma vida. Além dos argumentos hedonistas, que determinam a tônica do debate político contemporâneo, o argumento é defendido pela ótica de que uma mulher não é obrigada a dar continuidade a uma gravidez indesejada.
É a linguagem totalitária, como estudada por Viktor Klemper sobre a Linguagem do Terceiro Reich, com um eufemismo forçoso para “matar uma criança no útero”, transmutada para um agradável e singelo “interromper uma gravidez”, como se interrompe uma música desagradável no rádio.
Pesquisa no Google sobre "interromper a gravidez" (aborto)
O paradigma para o aborto no Ocidente, contudo, não poderia se espelhar no totalitarismo socialista ou nacional-socialista. Prefere-se então olhar para o mundo livre, usando-se sempre como exemplo da “normalidade” do aborto a sua prática no coração do capitalismo: a América.
O aborto nos Estados Unidos é permitido até qualquer momento até o nascimento. Estima-se que mais de 1 milhão de abortos são realizados anualmente. Como lembra a página Escolástica da Depressão,
O aborto foi extensamente legalizado depois da farsa Doe x Bolton e Roe x Wade, onde Mary Doe, que era de origem humilde e sem instrução, foi pressionada pela advogada e por sua mãe a abortar seu quarto filho. Já Jane Roe mentiu ter sido violentada e foi militante abortista por anos, hoje trabalha para esclarecer as mulheres sobre as conseqüências de se fazer um aborto.
Roe x Wade é um caso estudado no mundo inteiro não pelo seu conteúdo, mas pela forma: foi o maior caso de ativismo judicial da História, quando juízes inventam leis de estro próprio, que não foram debatidas, eleitas e decididas pela população.
O que pouco se comenta é que a farsa, nunca “desfeita” mesmo depois de o público descobrir a tramóia que permitiu a jurisprudência para o aborto ser legalizado, tinha como objetivo o aborto de negros, para que se diminuísse seu percentual na população. Continua a página:
A Planned Parenthood é a maior clinica de aborto do mundo e foi acusada recentemente de vender as partes do corpo de bebês abortados, inclusive preferiam abortos cujo crânio do feto fosse preservado, pois o valor era mais alto.
A Planned Parenthood foi criada pela feminista Margareth Sanger. Sanger era membro da Klu Klux Klan, declaradamente racista, tinha como objetivo em fundar a clinica de abortos para reduzir a população negra americana. Hoje a maioria das clinicas da PP se encontra nas periferias onde predomina negros.
A esquerda americana, com o mesmo vezo pelo controle da sociedade que os soviéticos ou os nazistas e suas ganas pelo aborto, também queria controlar a população.
Sem os floreios “multiculturalistas” que a propaganda revolucionária ganha no exótico Terceiro Mundo, a esquerda americana, que já foi contra o fim da escravidão (o Partido Republicano foi criado para abolir a escravidão, o que conseguiu com Abraham Lincoln), os indivíduos “improdutivos” da sociedade dirigida, do “amor racional” e da “causa social” eram reconhecidos como a população negra, sempre se focando na alta criminalidade encontrada em bairros negros.
Para a massa falante brasileira, acostumada a associar “racismo” imediatamente à direita conservadora (sem perceber que Lincoln aboliu a escravidão na América e o maior conservador brasileiro, Joaquim Nabuco, foi o líder abolicionista no Brasil), ainda acreditando que o nazismo é uma “extrema-direita” (como se eles próprios assim se enxergassem e se definissem), é chocante perceber que a Ku Klux Klan era e é, na verdade, um braço paramilitar do Partido Democrata, que enxerga nos negros “parasitas” de um sistema social, algo como “não merecedores do Bolsa Família” que querem para si. Tal como os nazistas, são chamados de “extremistas de direita”, sem terem qualquer conexão com a direita, os conservadores ou o Partido Republicano.
O historiador George C. Rable define que a KKK só foi “descartada” pelo Partido Democrata quando falhou como braço armado para derrotar os sulistas Republicanos, e sua apreciação por God, Family, Country.
O historiador Eric Foner declara sem meias palavras que a Ku Klux Klan é “uma força militar servindo aos interesses do Partido Democrata”. O líder da KKK Nathan Bedford Forrest declarou ainda no século XIX que os principais inimigos da Ku Klux Klan eram as Union Leagues do Partido Republicano na Guerra Civil ou o governador republicano William Gannaway Brownlow. Desconhecendo completamente a verdadeira história, a esquerda brasileira, que tanto grita “vá estudar História”, acredita que basta associar “racismo” à direita e crer que a KKK é um grupo de extrema-direita, a um só tempo em que defende o aborto, a tônica da própria KKK.
Para a moralidade esquerdista, dessacralizada e racionalista (ao contrário do que seus críticos usualmente afirmam, a esquerda é mais “intelectual” do que a direita, mas tenta intelectualizar e “problematizar” até o valor indiscutível da vida), tudo se resume a uma injustiça de poderosos privilegiados contra oprimidos explorados. Daí surge a grita por feminismo, ou contra preconceitos, cada vez menos delimitados.
É normal hoje ver o movimento negro, anti-racista, gritar que o aborto deve ser legalizado pois muitas mulheres negras morrem fazendo abortos clandestinos. Sem notar que ignoraram a vida de seus filhos, acabam comprando uma propaganda que veio diretamente da Ku Klux Klan para fazer o controle populacional da população negra, aquela que seria “mais criminosa” por ter mais filhos.
Entre o feminismo e o racismo, quando colocados na realidade lado a lado, como fica o discurso progressista para defender o aborto?

Aborto e o globalismo de George Soros

A idéia da sociedade dirigida e controlada pelo Leviatã moderno em escala global não é estudada no Brasil. Trata-se do globalismo, que já apresentemos no 10.º episódio de nosso podcast: Não é você que pensa o que pensa – George Soros pensa por você.
Uma hashtag como #PrecisamosFalarSobreAborto não dispara para o primeiro lugar dos Trending Topics do dia para a noite sem planejamento, pela “horizontalidade” das redes. Basta ver quem teve um planejamento estratégico para usá-la e repeti-la, para o público em geral crer que ele próprio é que pensou na questão e foi protagonista de seu destino e dono de suas próprias idéias. Mais uma vez, a página Escolástica da Depressão:
George Soros, um metacapitalista americano, financiador a PP, da candidata à presidenda dos EUA Hillary Clinton, financia também grupos militantes pela legalização do aborto, como “Católicas” pelo direito de decidir, Mídia “Independente” Ninja e Quebrando o Tabu. Qual o interesse dele na legalização do aborto no Brasil?
Sob argumentos “científicos” como “se não há sistema nervoso desenvolvido, pode abortar”, pesquisas financiadas por fundações globalistas, como a Open Society, sempre chancelam a prática do aborto como normal, natural e mesmo saudável. Seu linguajar é sempre eufemístico, ultrapassando as raias do ridículo, como falar em “controle geracional” para não usar a temível palavra aborto. Suas “conclusões” científicas são aquelas que aparecem coincidentemente em sites e blogs progressistas antes de qualquer publicação científica onde possa haver debate.
Por fim, mais um parágrafo da Escolástica da Depressão:
Dr. Bernard Nathason, conhecido o Rei do Aborto, responsável por mais de 50.000 abortos nos EUA, ele afirmou que eles mentiam dados, inflavam o número de aborto para afirmar que era caso de saúde pública.
A sociedade de controle total pode não ter mais a forma soviética: planificação total da economia (George Soros não é senão um hiperinvestidor), Gulags e o totalitarismo aberto. Mas basta analisar a linguagem moderna, “livre”, que sabe o quão ridículo é se definir como “comunista”, mas defende ainda o mesmo que os pedagogos soviéticos cada vez mais desabridamente na sociedade para pregar rigorosamente o mesmo.
É uma nova forma de 1984, de George Orwell. O ministério da Verdade de 2016 é feito pela própria Rede Globo, para que a esquerda grite no segundo seguinte que “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, que divulga o mesmo globalismo de George Soros.

Enquanto a esquerda usa pais de família pobres como propaganda, prega entre os seus a destruição da família para seu objetivo de controle social total.
Enquanto a esquerda grita contra o racismo, prega um modelo de controle populacional para diminuir o percentual de negros, até apoiando-se no argumento racista da criminalidade futura.
Enquanto a esquerda fala em “feminismo”, ignora a feminilidade mais suprema: a maternidade e a empatia por um filho.
Enquanto a esquerda prega a defesa do oprimido sem privilégio, prega a matança da minoria mais desprotegida que existe: uma criança na barriga da mãe, enxergada apenas como um “amontoado de células”, como os nazistas enxergam os judeus.
Veja também:
Blood Money, documentário sobre a indústria do aborto e a ideologia eugenista e racista do feminismo abortista:

– Lula mentindo sobre o números de aborto:https://goo.gl/dX0XA5
– Isabella Mantovani – Dados sobre o aborto:https://goo.gl/T1k5H1
– Dados aborto nos EUA: https://goo.gl/mFri9s
– A farsa do Roe versus Wade e Doe versus Bolton https://goo.gl/9r5iPE
– Dr. Bernard Nathanson expõe as mentiras pró-aborto https://goo.gl/Frjvwj
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“ACORDO DE PAZ” COM AS FARC É COMO “PAZ” COM O COMANDO VERMELHO - Flavio Morgenstern

O tão defendido "acordo de paz" com as FARC pode soar bom, mas significa recompensar guerrilheiros com dinheiro e poder.
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As FARC, Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia, são o grupo paramilitar que mais matou na América Latina. Não é um grupo criminoso como a máfia italiana, cujo intuito é a proteção da família, ou uma quadrilha de narcotraficantes qualquer: as FARC são uma guerrilha de esquerda, de inspiração marxista-leninista (stalinista), que busca atingir uma sociedade sem classes através da revolução.
As FARC, portanto, fazem o mesmo que a esquerda brasileira preconizava, através do terrorismo, estupro, seqüestro, do assassinato, da expulsão de populações inteiras e de conflitos armados que legaram cerca de 220 mil mortos em 65 anos, além de centenas de milhares de refugiados. Tanto a ditadura que respondeu ao terrorismo da esquerda brasileira quanto as FARC se iniciaram em 1964.
Os conflitos com as FARC pareciam ser uma realidade perene da Colômbia, fazendo com que os conflitos armados para a instauração de uma ditadura do proletariado, aliada aos violentíssimos cartéis de Cáli e Mendellín, de Pablo Escobar, deixassem as cidades colombianas entre as mais violentas do mundo.
A situação se inverteu em fins da década de 2000. O presidente Álvaro Uribe, um dos presidentes mais tendentes à direita da história sul-americana, impôs seguidas derrotas militares às FARC, mesmo com o apoio que passaram a receber do presidente venezuelano Hugo Chávez. A popularidade de Uribe disparou com seu planejamento para tornar cidades como Bogotá e Mendellín entre as mais seguras do mundo em menos de uma década, através de uma reestruturação que é modelo global, enquanto o vizinho bolivariano Hugo Chávez era obrigado ao uso da força e da manipulação da lei para se manter no cargo, cada vez com mais independência do eleitorado.
No más FARC, ColômbiaNa virada da década, as FARC quase pareciam passado, ao menos no noticiário internacional, com as seguidas derrotas que diminuíram o poder militar e econômico da guerrilha comunista e o apoio popular a Uribe, então o presidente mais bem avaliado nas Américas. Uribe ainda faria seu sucessor, Juan Manuel Santos, sob o lema No más FARC. Santos, ao invés de continuar a política de Álvaro Uribe, seguiu por uma via oposta: transformar os terroristas das FARC em um partido político legal.
Nesta semana, foi alardeado e comemorado por todos os veículos de imprensa no mundo todo o “acordo de paz” com as FARC. Segundo a propaganda governista, Juan Manuel Santos conseguiu a paz “sem nenhum tiro”. Entre a paz e a guerra, foi uma paz atrasada em 55 anos, e todos comemoraram.

“Acordo de paz” além das manchetes

Entre a paz e a guerra, é normal preferir a paz. O difícil é saber pelo que se está lutando: o pacifismo absoluto, como um valor e meta em si, pode ser ainda mais nocivo do que a paz. Basta-se pensar, abusando-se do clichê em nome do didatismo, se gostaríamos de um “acordo de paz” com os nazistas em 1945, ou se o mundo só vislumbrou alguma justiça após derrotá-los e acabar com seus líderes, um a um.
Pela impressão imediata dada pelas manchetes, parece que a guerrilha foi derrotada, julgada, e apenas seus  um partido político “lutando por democracia” finalmente terá seus direitos políticos defendidos por um governo tirânico.
Desfile das FARC em San VicenteAlguns detalhes, todavia, parecem escapar de quem só lê notícias e se impressiona facilmente com a idéia de paz. De acordo com o podcast Xadrez Verbal, Juan Manuel Santos garante que as FARC deixarão de existir e se tornarão um movimento político sem armas. O acordo ainda precisa passar por um referendo, exigindo comparecimento de ao menos 13% de eleitores possíveis. As primeiras pesquisas indicam que 88% do levante eleitoral querem que ex-guerrilheiros da FARC cumpram pena de prisão.
A passar o acordo de paz, tais pessoas podem se deparar com uma realidade bem menos agradável do que à primeira vista.
Ainda de acordo com o Xadrez Verbal, serão julgados os guerrilheiros que tenham cometido crimes de lesa-humanidade: assassinato, tortura, seqüestro, estupro e aliciamento de menores. Quem cometeu roubo, extorsão ou “delitos políticos”, como usar a própria farda das FARC não será julgado. Tais crimes terão anistia geral.
Pela Justiça Transicional, quem confessar os delitos terá uma sentença de 5 a 8 anos em “restrição de liberdade” – ou seja, em vigilância em áreas de movimentação limitada. Quem for julgado e condenado podem ser condenados a até 20 anos de cadeia em prisões comuns.
Os guerrilheiros anistiados receberão mensalmente por 24 meses 90% de um salário mínimo “para facilitar sua adaptação à vida civil”. Se depois desses 2 anos, tal guerrilheiro não tiver cometido nenhum delito e estiver ou trabalhando ou fazendo parte de um projeto comunitário, como desativação de minas terrestres, ou ainda matriculado em algum curso profissionalizante, receberá ainda um “prêmio” de 8 milhões de pesos colombianos, cerca de R$ 8.900,00, como um peso final para reconstruir a vida.
Vítimas das FARCPara isso, portanto, precisa cumprir uma série de exigências, como andar na linha por 24 meses. É um conceito curioso de justiça: todo colombiano que sofreu com as FARC cumpriu a lei, não cometeu delitos e até mesmo teve a sua liberdade de locomoção restringida pela própria guerrilha. Exigir 2 anos de “vida normal” de guerrilheiros para, então, terem uma vida normal, não soa exatamente a punição.
A liberdade política concedida às FARC também não serão apenas garantidas, mas exigidas: as FARC participam das eleições já em 2018, até 2026 seu partido receberá uma verba fixa do Estado, e ainda nas duas próximas eleições os guerrilheiros terão um mínimo garantido de 5 cadeiras em cada casa legislativa.
De acordo com o Instituto Ipsos, 70% dos colombianos não querem que as FARC se tornem um partido político.
Pela noção básica de recompensas da vida, soa bastante estranho, afinal, que guerrilheiros que aterrorizaram a população, roubando seus bens com ameaças mortais para instaurar uma ditadura na qual controlarão todos os bens de toda a população, além de se tornarem políticos, ainda tenham mais bens da população transferidos para si.
Ou seja: ser honesto e não assassinar ninguém em nome da ditadura do proletariado tem como recompensa ter seu dinheiro transferido para quem não foi honesto e fez parte de uma guerrilha que estuprava, seqüestrava, matava, expulsava de casa, roubava e fazia tráfico de drogas para seu caminho até o socialismo.
O crime sob Juan Manuel Santos definitivamente compensa. Fora o forte catolicismo colombiano, parece não haver outro incentivo para as pessoas serem honestas.

“Paz” = anistia para as FARC

Se as razões instrumentais do “acordo de paz” já soam muito menos dignas de elogios e comemorações entusiastas do que as manchetes fazem parecer, as razões históricas e políticas soam ainda menos alvissareiras.
A palavra “paz” é uma das palavras com mais universal apelo psicológico. O cuidado com as palavras e seu verdadeiro significado é algo que sempre incomodou filósofos, fosse Sócrates ou Heidegger.
É fácil vender um “acordo de paz” como algo histórico, a ser cantarolado por gerações pelos bardos. Mas apesar de ninguém desejar a guerra contra um povo pacífico, um acordo de paz com quem agrediu e maltratou o povo não soa como algo além de um eufemismo para rendição. E anistia para crimes que só vieram de um lado.
Se já parece um acidente do destino, um golpe de diplomacia, a coisa se torna pior quando se pensa no que querem as FARC.
Uma guerrilha marxista-leninista não quer viver às sombras do poder, vivendo de narcotráfico. Seu objetivo é o coração do poder, é governar o povo, é ter reconhecimento internacional, é ter controle sobre todo um país.
FARC - seqüestroO terrorismo das FARC sempre teve essa mensagem política: desestabilizar o governo para ir tomando-o pela força. Como as FARC não buscaram concorrer em eleições, pensa-se nelas como apenas uma “guerrilha” sem objetivos políticos, sem notar que uma guerrilha é apenas uma forma de revolução sem tantos recursos e sem a preparação de intelectuais urbanos.
Se as FARC sempre quiseram o poder, “legalizá-las” e lhes dar assento no governo é apenas não se subjugar ao totalitarismo da ditadura do proletariado modelo stalinista, mas cumprimentá-la e lhe dar espaço para ir realizando seu plano aos poucos. Isto não é exatamente um “acordo de paz”: é uma legalização, recompensa e prêmio dado por mais de meio século de busca do poder pela violência.
Seria o mesmo que, hoje, algum político dizer que cessará a guerra contra o PCC ou o Comando Vermelho, propondo um “histórico acordo de paz”, em que os membros do PCC ou do CV formarão um partido político, serão anistiados de crimes “leves” (que não atentem contra a humanidade) e ainda ganharão dinheiro do pagador de impostos brasileiro para iniciar sua “nova vida”.
No más FARC - no más secuestros, no más muertes, no más terrorismoDiga-se, o PCC já tem planos de se tornar um partido político, e a inteligência policial paulista é bem desconfiada de que muitos dos crimes cinematográficos que ocorrem com bancos e empresas de segurança coincidentemente em ano de eleição, como se viram vários em 2016, servem justamente para financiar candidaturas do PCC espalhadas por partidos de esquerda. E o Comando Vermelho não tem esse nome senão pela gestão de Leonel Brizola como governador do Rio de Janeiro, que misturou presos políticos e comuns nas mesmas cadeias, com um belo intercâmbio entre ideário socialista e criminalidade física.
Menos surpreendente é saber quem são os contatos do narcotráfico das FARC no Brasil. Sua ligação com a fronteiras é feita justamente com traficantes como Fernandinho Beira-Mar e Marcola, o líder do PCC. Será que os jornais deveriam comemorar tanto um “acordo de paz histórico” que desse poder e dinheiro diretamente nas mãos do PCC e do Comando Vermelho para logo elegerem seus Beira-Mares como deputados, prefeitos, quiçá governadores, senadores e quejandos?
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