sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

14 razões por que você deveria desconfiar (e muito) dos políticos brasileiros


14 razões por que você deveria desconfiar (e muito) dos políticos brasileiros

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Sob qualquer perspectiva, o ano de 2016 foi atípico na política brasileira. Em menos de 100 dias, o país assistiu dois presidentes – a da República e o da Câmara dos Deputados – serem depostos, enquanto um terceiro, o do Senado, luta para se manter no cargo.
Na atual Presidência da República, a ordem é aprovar o mais rápido possível as reformas enviadas ao Congresso, de preferência antes que um novo áudio vazado exponha negociatas e atos ilícitos de mais algum dos principais ministros do governo, como Romero Jucá ou Geddel Vieira Lima.
E se nada disso lhe convencer de que este foi um ano para ficar em cima da classe política, a tão aguardada delação da Odebrecht promete citar até 200 deles. Tem para todos os gostos, e também para desagradar quase todo mundo que tenha resistido aos últimos meses e se mantido fiel na torcida por alguma figura específica do nosso espectro político.
 
Se você é daqueles que prefere encarar tudo com bom humor e se perguntar: “Como diabos os historiadores conseguirão explicar este ano no futuro?”, aqui vai uma dica: o final da história será escrito em letras garrafais com um anúncio que diz: “Cuidado ao confiar em políticos.”
Em meio ao aparente caos, um detalhe acabou passando despercebido: a disputa entre os três poderes tornou-se não apenas uma disputa de egos, mas um questionamento prático de privilégios. Renan Calheiros e parte do Congresso ameaçaram aprovar leis que tornassem mais difícil ao Judiciário manter os supersalários que passassem do teto do funcionalismo, de R$ 36.813,00.
A resposta dos membros do Judiciário foi a mais clara possível: cuide primeiro dos excessos do Legislativo. No Senado, presidido por Renan, motoristas podem ganhar R$ 12,8 mil, enquanto garçons chegam a ganhar R$ 15 mil.
Confiar que Renan, ou qualquer político, esteja de fato preocupado com os abusos e privilégios de outro poder seria, no mínimo, ingenuidade. Se você ainda acredita na sinceridade deles, listamos alguns exemplos de como nossos políticos não parecem muito preocupados em ser econômicos com o seu dinheiro:

1) 58 em cada 100 projetos aprovados na câmara municipal de SP se referem a mudanças de nomes de ruas ou datas comemorativas. Custo pelo serviço: R$ 180 mil por vereador.

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Você provavelmente dedicou algum tempo a escolher o melhor nome e fazer bonito nas eleições municipais de 2016. Teve de encarar inúmeros candidatos nada convincentes e perceber que, de todos ali, boa parte não faz idéia do que um vereador faz na prática.
É uma situação bastante comum. Boa parte da população ainda tem dificuldades em apontar qual é a tarefa de cada um na política brasileira. Fiscalizar o prefeito, aprovar leis e toda a decoreba que as campanhas do Tribunal Superior Eleitoral ensinam é até conhecida, mas e no dia a dia? O que de fato fazem os vereadores pelo Brasil?
Se o assunto for a Câmara Municipal de São Paulo, a resposta é fácil: vereadores definem datas comemorativas e nomes de ruas, em ao menos metade do seu tempo. Apesar do volume recorde de projetos aprovados nos últimos anos, boa parte deles(58%) pode ser resumida nestes dois itens. Entre os exemplos, encontramos a criação de dias para comemorar a profissão de motoboy e definir o nome mais adequado para o elevado Costa e Silva.
A Câmara de Vereadores paulista custa anualmente mais de meio bilhão para a cidade.

2) Os R$ 5 milhões que o Senado pagou ao Sírio-Libanês, o melhor hospital privado do país.

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A discussão sobre o impacto do ajuste fiscal proposto pelo governo para a saúde ainda se desenrola no Congresso. Medir os efeitos sobre saúde e educação ao longo dos anos tornou-se ponto central na discussão, a despeito da participação de ambos no orçamento total.
Para os senadores, no entanto, a discussão tem pouca importância. De checkups a internações mais sérias, o Senado coloca à inteira disposição de seus membros e dependentes (parentes de primeiro grau) o melhor hospital do país.
Em 2013, entre janeiro e julho, a conta chegou aos R$ 5,1 milhões. Tudo isso para atender servidores, senadores, filhos, cônjuges e até ex-senadores.

3) O presidente que se aposentou aos 55 anos e recebe 6 vezes mais do que o teto do INSS.

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Enviada ao Congresso esta semana, a reforma da previdência promete resolver um problema grave de descontrole dos gastos na área. Porém, a forma como isto deve ser feito ainda levanta discussões.
Para resolver um problema atuarial, ou seja, para garantir que haverá recursos para bancar as aposentadorias e pensões no futuro, o governo espera elevar para até 67 anos a idade mínima para aposentadoria. Na prática, você irá se aposentar com no mínimo 67 anos, recebendo uma base de 51% da média das suas contribuições, e 1% a mais para cada ano de contribuição. Para receber 100% por exemplo, teria que contribuir por 49 anos.
A severidade da reforma se dá em boa parte pelos excessos concedidos no passado, segundo a justificativa oficial. Para entender estes excessos, basta dar uma olhada no caso do próprio Presidente da República.
Com 55 anos, portanto 21 anos atrás, Michel Temer se aposentou como Procurador do Estado de São Paulo, ganhando R$ 30 mil mensais.
Por não se tratar de um contribuinte do INSS, Temer pode receber o salário integral, benefício concedido ao funcionalismo público que ingressou no cargo antes de 1998.
Foram, portanto, 30 anos contribuindo com 11% de seu salário, para passar, até aqui, 21 anos recebendo 100% do salário de aposentadoria. Como você já percebeu, a conta não fecha e quem paga a diferença é você.

4) Os R$ 2 bilhões gastos com aposentadorias e pensões de ex-congressistas.

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O IPC, o Instituto de Previdência do Congresso, já não existe há pelo menos 17 anos. Seu custo, porém, continua pesando no orçamento do Congresso. Manter os pouco mais de 1,1 mil políticos e servidores aposentados, ou as pensões para os cônjuges e dependentes, gera um custo de R$ 164 milhões anuais.
Ao contrário do cidadão comum, que contribui por 30 anos ao INSS para receber sua aposentadoria, é possível, ainda hoje, que um congressista passe 8 anos no cargo para se aposentar. Basta que tenha mais de 50 anos.
O custo médio por cada pensão chega a ser 7,5 vezes maior que a média paga pelo INSS, beirando os R$ 14 mil mensais para cada um dos beneficiários.

5) Os R$ 252 milhões gastos por legislatura apenas para ajudar deputados e senadores a comprarem ternos.

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Muito além de um 13º salário, congressistas esbanjam generosidade entre si, estendendo a todos os parlamentares o direito ao chamado auxílio-paletó, uma espécie de 14º e 15º salários, justificados da maneira mais curiosa possível: garantir que os deputados e senadores possam comprar ternos por ano para exercerem de maneira adequada sua atividade profissional.
Levando ao pé da letra, como mostra o site Congresso em Foco, seria possível comprar 126,250 ternos de R$ 2 mil. Divida o valor pelos 594 congressistas brasileiros (513 deputados e 81 senadores) e a conta chega a impressionantes 212 ternos para cada um.
Seria possível que cada membro do Congresso Nacional usasse um terno de R$ 2 mil por sessão e em seguida nunca mais o utilizasse, tudo sem custo pessoal algum.
Nas contas do Congresso em Foco, a utilização dos valores ganha outro significado: 4,7 mil casas populares construídas todos os anos ou 17 mil núcleos familiares que sairiam da extrema pobreza se nosso deputados e senadores decidissem pagar pela própria roupa.
Em maio de 2012, sob protestos e denúncias de abusos na verba, o Congresso aprovou a extinção do benefício criado em 1943.
A sessão que aprovou o fim da regalia foi marcada por discursos emocionantes, como o do deputado que lamentava ter de sobreviver com um salário líquido de R$ 19 mil.

6) Os R$ 4,2 milhões anuais que os 24 membros do legislativo do DF gastam por ano mandando cartas.

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Qual é o seu e-mail? Ou melhor, qual é o seu Face? Fazer estas perguntas na Câmara Legislativa do Distrito Federal pode ser um pouco confuso.
Uma vez que boa parte da população brasileira deixou para trás o romantismo das cartas enviadas por correio – exceto se você for um prisioneiro jogando xadrez por correspondência -, os gastos dos deputados distritais com cartas podem soar um pouco estranhos.
Em tese, cada um dos 24 deputados pode gastar R$ 175 mil anuais apenas enviando cartas para informar a população. Tudo isso por um custo semelhante ao de contratar 107 professores pagando a cada um o piso nacional da educação.
O valor permite ainda que os deputados gastem os recursos com gráficas para realizar a divulgação, basta solicitar um comprovante justificando o gasto.

7) Os deputados do Maranhão que recebiam 18 salários por ano, e agora têm que se contentar com apenas 15.

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É provável que você já tenha se deparado com alguma mentira sobre a votação no Congresso para acabar com o 13º salário. “Congressistas se reúnem para acabar com os direitos dos trabalhadores!”, diz a imagem, seguida de um textão explicando como o partido A ou B estaria tramando contra você.
Um pouco menos trágica foi a notícia recebida pelos deputados do Maranhão, de que receber 18 salários anuais estava onerando demais a assembleia e provocando reações controversas. Em 2012, a assembleia legislativa decidiu que este número era de fato absurdo. Corrigiu o erro. Nada mais de 18 salários por ano, e sim 15!
Durante a votação, que ocorreu 3 dias após uma reportagem denunciar o ocorrido, um dos deputados tomou a palavra e decidiu fazer um protesto, segundo ele,  “contra as gangues que querem desmoralizar o Parlamento brasileiro e, especialmente, a Assembleia Legislativa do Maranhão”. Para outros deputados, a reportagem foi feita com o claro intuito de indispor o legislativo com a sociedade.
Apesar dos protestos, os 18 salários de R$ 20 mil (valor da época), foram corrigidos para 15. A verba de R$ 50 mil mensais em indenizações diversas, porém, foi mantida.

8) Os R$ 46,8 milhões anuais para bancar aposentadorias de 157 ex-governadores, após 4 ou 8 anos de trabalho.

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Imagine passar 4 anos trabalhando em um emprego que lhe garante renda suficiente para estar entre os 0,5% mais ricos do país e, ao final deste período, receber aposentadoria para toda a vida. Este emprego dos sonhos existe, em inúmeros estados brasileiros onde a aposentadoria para ex-governadores não foi extinta.
Por ano, o valor equivalente ao de cerca de mil moradias populares é despendido por estados como o Rio Grande do Sul – um total de R$ 46,8 milhões em aposentadorias.
Em Estados como o Maranhão, ex-governadores e viúvas que recebem a regalia podem contar ainda com veículos oficiais e assessores, também bancados pela União.

9) O plano de saúde dos senadores que custa R$ 25.998 por ano, ou 52 vezes o gasto médio com cada cidadão no SUS.

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Nada menos do que 1,5 milhão de brasileiros tiveram de abandonar planos de saúde nos últimos meses por conta da queda na renda ou o desemprego ocasionado pela crise que o país atravessa.
Em Brasília, onde o orçamento federal para a saúde – que atenderá esta demanda crescente – é discutido, a situação é bastante distinta. Um plano de saúde que atende à família inteira, com médico e dentista à disposição.
Apenas com o tratamento dentário de dois senadores, José Agripino e Pedro Simon, o Senado desembolsou nada menos do que R$ 134 mil.
Cerca de R$ 5,1 mil foram gastos ainda com aplicação de botox pelo ex-senador Milton Cabral e sua esposa, Miriam. O motivo? Ele foi senador em 1986 e o plano de saúde do Senado é vitalício e estendido a parentes.
A farra ocorre livremente, já que nenhuma auditoria é de fato responsável pelo plano de saúde do Senado.
Na ponta do lápis, cada senador custa em média 52 vezes mais do que os recursos gastos pelo SUS com cada brasileiro.

10) Os 10 dias de folga do Congresso, que custaram R$ 20 milhões, para comemorar as festas juninas.

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Que tal aproveitar um feriado numa quarta-feira de São João e pular a fogueira, subir o pau de sebo, comer maçã do amor e formar a sua quadrilha? Para os deputados, a idéia pareceu tentadora. Só tem um pequeno problema: o Congresso funciona de terça a quinta, já que na sexta os congressistas precisam ir para casa e na segunda estão cansados voltando de viagem. Como resolver este empecilho?
Para o ex-presidente da Câmara, Waldir Maranhão, a solução foi simples: criou-se um feriadão, que se estende por 10 dias.
A parada, não programada e que não descontará os dias de férias a que os deputados têm direito, representa nada menos do que R$ 20 milhões a mais em gastos para manter o Congresso funcionando, ainda que nada tenha sido aprovado.

11) A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde 80% das leis aprovadas são inconstitucionais.

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A praça de guerra em que se transformou a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro nos últimos dias tinha um objetivo claro: barrar qualquer tentativa de aprovar as leis enviadas pelo governo para fazer um ajuste fiscal.
Uma pessoa mais observadora, porém, poderia ter feito uma outra sugestão: deixe que os deputados votem o que acham que devem votar e em seguida tudo se resolve. Se o padrão da assembleia for mantido, 80% do que for votado não tem validade, já que vai contra a Constituição do Estado e a Constituição Brasileira.
Dentre as leis, há aquela cujo objetivo é proibir a abertura de lan houses a menos de 1 km de escolas, ou outra que torna obrigatória a existência de times femininos jogando preliminares das rodadas decisivas do campeonato estadual.
Das leis consideradas constitucionais, há ainda algumas de relevância duvidosa, como as que declaram a utilidade pública de entidades como ONGs ou outras associações.
Apesar de serem vetadas pelo governo, as leis acabam tendo o veto derrubado e passam a ser julgadas pelo TJ-RJ, obrigando o tribunal a arbitrar a briga entre executivo e legislativo.

12) Os R$ 696 mil gastos pelo senado para comprar iPhones.

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Cumprir bem a função de parlamentar requer certos sacrifícios por parte de certas pessoas. Se dispor a viajar ao menos duas vezes por semana para Brasília, sobreviver com 40 salários mínimos, ou ainda ser proibido pela imprensa fiscalizadora de levar a esposa em viagens pagas pelo Congresso.
Apesar de tudo, certos mimos provavelmente compensam. Para prestar um bom serviço, por exemplo, o Senado Federal garante a cada um dos seus membros um celular de última geração. Mais especificamente, um iPhone.
A casa possui um contrato de telefonia que garante o fornecimento de celulares, além de ligações ilimitadas. No entanto, os 360 iPhones novos – ao custo dR$ 696 mil – devem ser utilizados pelos senadores que por qualquer razão não se sentirem confortáveis em utilizar os celulares garantidos pela operadora.

13) Os professores do Rio Grande do Sul que recebem o salário em 3 vezes, enquanto deputados recebem em dia.

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A crise fiscal que assola o Rio Grande do Sul tem uma origem longínqua. Nos últimos 45 anos, por exemplo, o governo gaúcho gastou menos do que arrecadou em apenas 3 deles. Como consequência, nenhum estado do país tem uma situação previdenciária tão complicada e uma dívida tão alta.
Apenas para bancar o déficit da previdência, o governo do estado gasta mais do que toda a verba de saúde, educação e os investimentos em segurança. São nada menos do que 1,3 aposentados para cada trabalhador na ativa.
Manter os salários em dia, portanto, é um desafio para qualquer governador. Nada menos do que 70,3% dos recursos detidos pelo Estado são destinados a pagar salários.
O resultado é que, diante de um déficit que chegou próximo aos R$ 5 bilhões em 2015 (valor semelhante ao gasto com saúde), o governo do estado encontrou uma alternativa: pagar os salários do executivo em 4 vezes. Toda semana os servidores gaúchos veem pingar nas suas contas parcelas de R$ 350, R$ 800, ou R$ 1350 no último mês, que foi considerado recorde.
Nada disso, porém, diz respeito ao legislativo. Deputados gaúchos, como quaisquer deputados e membros do judiciário pelo Brasil, têm seu orçamento devidamente separado. Tudo isso porque o orçamento de cada um dos três poderes é constitucionalmente distinto, para garantir que nenhum deles possam interferir na atividade do outro.
O resultado prático é que, mesmo ganhando cerca de 20 vezes mais que um professor ou policial, os deputados gaúchos conseguem receber seus salários em dia, sem maiores problemas.

14) A assembléia do RS que gasta 10 vezes mais com combustível do que a Polícia Militar.

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A tradicional Brigada Militar gaúcha é uma das instituições mais respeitadas do estado. Desde a sua criação em 1837, a Brigada, como ficou conhecida a partir de 1892, já participou de nada menos do que 6 revoluções e revoltas no Brasil, como a Revolução Federalista, uma guerra civil que ocasionou 10 mil baixas entre civis e militares, e a revolução de 1923, além de conflitos como aqueles que dividiram o Brasil em 1932 (na revolução constitucionalista, o 9 de julho paulista).
Apesar de uma história respeitável, o peso e a importância da instituição parecem ter diminuído drasticamente nos últimos tempos. Em um estado que sofre hoje uma epidemia de violência, o orçamento da Brigada é afetado por diversos cortes.
 
Em 2014, cada um dos 129 veículos de parlamentares gastou em média R$ 35 mil, ou 10 vezes mais do que cada uma das viaturas da brigada militar.
O ex-presidente da assembleia, Edson Brum, não vê nada de errado. Os carros da Brigada circulam em velocidade reduzida, dentro da cidade apenas. Isso, segundo ele, representaria uma economia de combustível.

Em nome da estabilidade - Eliane Cantanhêde


- O Estado de S. Paulo

• STF virou alvo da opinião pública, mas agiu para estancar a crise institucional

Já que o Supremo Tribunal Federal (STF) virou a Geni da vez, que tal entrar na contramão e defender a decisão do plenário, que estancou uma crise institucional e evitou mais um grave sacolejo na já frágil situação política, econômica e social? Nada nessa vida é perfeito, mas o Supremo, empurrado para uma situação difícil, em que qualquer decisão seria duramente criticada, optou pela saída possível: a de meio-termo.

Atual inimigo número 1 da população brasileira, Renan Calheiros (PMDB-AL) foi impedido de assumir eventualmente a Presidência da República no caso de ausência de Michel Temer, mas manteve a cadeira de presidente do Senado por mais um mês e meio. Na prática, significa que o Supremo deu alguns dias de vida útil para o supervilão da hora, já que o recesso parlamentar começa na semana que vem e o sucessor de Renan será eleito na reabertura dos trabalhos em fevereiro.

Então, objetivamente, o STF interrompeu uma crise institucional de proporções imprevisíveis, em um momento em que o País já está saturado de crises por um preço razoável: dar sobrevida de seis ou sete dias para Renan que não muda um milímetro o destino dele. A sorte do senador e de seus 12 inquéritos está lançada. Questão de tempo.

O problema foi o custo da decisão do STF na opinião pública: uma imensidade de críticas, um enorme desgaste. Os brasileiros estão exaustos com o tamanho, a disseminação e os valores estratosféricos que a corrupção assumiu. Logo, querem sangue, troféus, execuções em praça pública. A democracia e a justiça, porém, não se fazem assim. É preciso maturidade, serenidade e até coragem pessoal de homens e mulheres públicos para remar contra a corrente.

Foi isso que ministros como a presidente Cármen Lúcia e o decano Celso de Mello acertaram, até mesmo com representantes do governo e com parlamentares responsáveis e experientes como o vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-AC). Todos eles têm horror a que se diga que houve “acordão”, mais ainda “acordão para salvar Renan”. Mas houve, sim, acordo, só que não para salvar Renan. Nenhum deles quer ou vai salvar Renan de coisa nenhuma. Mas para preservar o equilíbrio entre Poderes, a estabilidade institucional.

Ao afastar o presidente de um outro Poder por uma liminar, sem haver urgência e fato novo, o ministro Marco Aurélio Mello não só atravessou o samba e um julgamento em andamento como mexeu com os brios do Senado e jogou o Supremo em uma emboscada, espremido entre endossar o arroubo do colega ou partir para o confronto direto com o Legislativo. Não por acaso a liminar do ministro foi no dia seguinte às grandes manifestações em 25 Estados e no Distrito Federal, em que os grandes vilões foram o Congresso, o desvirtuamento das dez medidas anticorrupção e, diretamente, Renan. O ministro ficou “bem” com a opinião pública. Mas deixou Supremo “mal”.

Para conceder a liminar em um caso assim, como lembraram Cármen Lúcia e Celso de Mello, deveria ter havido urgência e fatos novos, ingredientes sobejamente existentes na liminar do ministro Teori Zavascki afastando Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da presidência da Câmara e do próprio mandato. Por que a liminar de Teori contra Cunha foi aprovada por unanimidade no plenário? E por que a de Marco Aurélio contra Renan não foi? Reflitam, por favor.

Renan, que é Renan, só piora as coisas, ou joga gasolina na fogueira, recusando-se a receber a notificação do oficial de justiça, descumprindo uma liminar do STF e ontem tripudiando e chocando com uma frase que soa como sarcasmo ou provocação: “Decisão judicial do STF é para se cumprir”. Sinal de desespero? Só pode ser. Porque Renan Calheiros sobreviveu a essa batalha, mas não vai ganhar a guerra com a Justiça.

Busca do equilíbrio - Míriam Leitão


- O Globo

Retirada dos militares aumentará a resistência do país à reforma da Previdência. Um dos maiores defeitos do sistema brasileiro de aposentadorias e pensões é ser muito desigual. Ele sempre tratou diferentemente certos grupos. A reforma da Previdência se propôs a reduzir essas distâncias, mas quando protege as Forças Armadas, policiais militares e bombeiros está enfraquecendo o projeto. Esse é um ponto de desequilíbrio da reforma.

O secretário da Previdência, Marcelo Caetano, explica que a retirada das Forças Armadas, e agora dos policiais militares e bombeiros, da reforma foi uma decisão política. Mas que a ideia continua sendo a de reduzir diferenças de tratamento.

— Um dos grandes nortes da reforma é a harmonização dos tratamentos, é ter regras as mais parecidas possíveis entre os grupos e corporações diferentes. Estamos harmonizando regras entre servidores públicos e trabalhadores privados e acabando com alguns sistemas diferenciados como o de professores e policiais civis. Estamos com propostas de igualação, mas partindo de pontos distintos. Portanto, as regras de transição serão diferentes — diz o secretário.

Ele explica que os trabalhadores do setor privado terão seu benefício calculado de acordo com as novas regras. Além de terem um aumento do tempo exigido para se aposentar, as regras de cálculo do benefício serão alteradas pela reforma. Já no setor público, quem entrou antes de 2003 pode receber o último salário integral. Quem entrou depois da reforma de Lula, em 2003, recebe não o último salário, mas uma média dos salários:

— As minhas regras de transição de funcionário público são diferentes das de um trabalhador do setor privado. No futuro, haverá convergência. Depois, será tudo igual, mas estamos partindo de pontos distintos.

Numa entrevista que fiz com Marcelo Caetano na Globonews, perguntei por que o déficit deu um salto tão grande de um ano para o outro, saindo de R$ 86 bilhões para R$ 152 bilhões:

— Há uma questão estrutural na sociedade brasileira que é o envelhecimento da população, que está num ritmo muito rápido. Hoje, existem 11 idosos para cada 100 pessoas em idade ativa. Isso vai crescer e em 2060 teremos 44 idosos em cada 100 pessoas. Esse envelhecimento muito acentuado faz o déficit subir, mas grande parte do aumento recente se deve à recessão.

Não é um exagero a exigência de 49 anos de contribuição para que o trabalhador do setor privado tenha um benefício de 100% para o qual ele contribuiu? Marcelo Caetano acha que não. Explicou que a taxa de reposição — o que o trabalhador recebe na aposentadoria do salário que recebia — é alta no Brasil, em torno de 80%. Numa comparação do BID, é uma das maiores da América Latina. A conta foi feita na época do fator previdenciário, que de certa forma retorna agora. De acordo com o BID, a taxa sustentável no país deveria ser menos de 40%:

— Nós estamos mantendo a taxa de reposição em torno dos 80%, mas exigindo tempo maior de trabalho para as pessoas se aposentarem. No Brasil, os trabalhadores que ganham salário mínimo se aposentam e continuam ganhando o mesmo valor, portanto a reposição é de 100%. Nas outras faixas, há redução. Claro que a gente não vai propor o que o BID calcula que seja o ideal porque fica inviável para a vida das pessoas.

Caetano explica que as regras parecem duras, mas continuarão permitindo ao aposentado um provento num dos percentuais mais altos da América Latina.

Em relação às viúvas e viúvos jovens, abaixo de 44 anos, o governo Dilma já havia acabado com a pensão vitalícia. Tentou também um mecanismo de redução do valor muito parecido com o que foi adotado agora, mas o Congresso rejeitou.

A pior decisão foi excluir as Forças Armadas, que representam um déficit de R$ 32,5 bilhões, e agora os PMs e bombeiros.O Ministério da Defesa diz que o déficit é apenas R$ 13 bilhões porque só conta as pensões. Diz que militar não se aposenta, porque fica na reserva. Caetano acredita que haverá um projeto específico:

— A perspectiva do governo é encaminhar uma proposta posteriormente para as Forças Armadas. Está sendo discutido neste momento e eu participei de reuniões com militares, só não há um projeto formulado. Mas haverá. O tempo dirá.

Que o tempo diga que o governo teve a coragem de incluir também as Forças Armadas nesse esforço coletivo de equilibrar a Previdência.

LAVA JATO – A bola da vez é Alckmin; a fila é enorme - REINALDO AZEVEDO



LAVA JATO – A bola da vez é Alckmin; a fila é enorme

Depoimento dos 77 executivos da Odebrecht começaram nesta semana. A maioria fica para a próxima. Mas, como se vê, o mercado político já está se movimentando

O acordo de delação premiada da Odebrecht ainda não foi feito, mas os vazamentos já estão em toda parte, o que obedece, claro!, a uma estratégia política. E, por favor, os desconfiados podem verificar em arquivo que era o que eu dizia quando os alvos eram petistas. Ou por outra: o razoável é que só o conjunto viesse a público, com os devidos apontamentos, para que os acusados se defendessem — ou admitissem as suas culpas. Mas não é assim que as coisas se dão… Aí o esquerdista fica nervoso: “Ah, quando era Lula…”. Não me sinto atingido por essa crítica porque nunca condescendi com ilegalidades nem contra os petistas.
Segundo informa a Folha, “a Odebrecht afirmou, no acordo de delação premiada com a Operação Lava Jato, que realizou pagamento de caixa dois, em dinheiro vivo, para campanhas do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB)”. Teriam sido repassados R$ 2 milhões para Adhemar Ribeiro, irmão da primeira-dama, Lu Alckmin, em 2010.  Em 2014, quem teria recebido os recursos é o hoje secretário de Planejamento do governo paulista, Marcos Monteiro.
Os depoimentos dos 77 executivos da Odebrecht começaram nesta semana. A maioria fica para a próxima. Mas, como se vê, o mercado político já está se movimentando. Por intermédio da assessoria, o governador afirma que “é prematura qualquer conclusão com base em informações vazadas de delações não homologadas”. A nota acrescenta: “Apenas os tesoureiros das campanhas, todos oficiais, foram autorizados pelo governador Geraldo Alckmin a arrecadar fundos dentro do que determina a legislação eleitoral”. E, como se sabe, os dois que teriam cuidado da negociação não exerciam tal função.
Dizer o quê? Que se cumpra a lei. E isso vale para Alckmin e para qualquer outro.
Todos sabem que o governador de São Paulo é um pré-candidato tucano à Presidência da República. As pedras já estão se movendo. José Serra, ministro das Relações Exteriores, apoia, por exemplo, a recondução do senador Aécio Neves (MG) ao comando do PSDB. Eles dois também querem aquela cadeira e foram, igualmente, colhidos por denúncias. E se pode apostar que a fila de implicados pela empreiteira vai ser grande.
O PMDB não vive melhor sorte, e os petistas voltaram a se agarrar à sua única tábua: Lula. Ocorre que ele já é réu três vezes. Os grandes partidos vivem um transe. Impossível saber como chegarão a 2018. Falta menos tempo do que parece. Como esquecer que, depois de dois anos e meio de Lava Jato, Rodrigo Janot ainda não tenha apresentado nenhuma denúncia contra Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado.
A solução, qualquer que seja ela, vai demorar. A imprensa tem de publicar o que apura e ponto; não é guardiã de sigilos, mas os servidores públicos são. A estratégia de vazamentos vai minando o pouco que resta de confiança. Reparem já no número de aventureiros que se dizem… candidatos. Principal qualidade a ser exibida: “Não estou na Lava Jato”.
Quem disser que sabe o que vai acontecer em 2018 está mal informado